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O que é isto?
TERRENO BALDIO
 

.:: Frutas-do-Conde, Lagartixas e Beijos Roubados - PARTE 3 ::.

Jorge cochilava na rede. Eram só sete horas da noite e ele já tinha bebido demais. Acordou com o sobrinho lhe atirando sementes de fruta-do-conde. Com voz de travesseiro, resmungou:
— Fala, guri.
Gabriel atirou a última semente, mas Jorge conseguiu apanhá-la no ar, antes de ser atingido, para deleite do menino. Ele gritou, correu e se atirou na rede, o que irritou um pouco o tio.
— Tio, você ama alguém?
— Não. Nem a mim mesmo.
— Mas você não tem namorada?
Prevendo que o sobrinho não ia desistir assim tão facilmente, Jorge suspirou, resignado, e sentou-se na rede. Respondeu, ainda meio mau-humorado:
— Um relacionamento a longo prazo é um luxo que eu não posso me permitir.
Gabriel percebeu que o tio estava apenas enrolando e dediciu ir direto ao assunto:
— A Karina é uma menina que mora aqui perto. Ela vive perturbando os meninos, ela é meio chata, ninguém gosta muito dela. Outro dia, os meninos pegaram a boneca da Karina e arrancaram a cabeça dela!
Jorge brincou:
— Arrancaram a cabeça da Karina?
— Não, tio! Da boneca!
— Ah, bom.
— A Karina... Ela disse que eu sou o namorado dela e perguntou se eu amo ela...
— Como assim? Do nada? Por que ela ia dizer uma coisa dessas assim, sem mais nem menos?
Gabriel parecia meio encabulado. Disse baixinho:
— Ela me beijou...
— Ela te beijou ou você que beijou ela, seu sem-vergonha?
— Foi ela, foi ela que me beijou! E eu nem queria... Muito... Eu acho...
O tio suspirou:
— Não esquenta não, guri, no começo é assim mesmo...
Olhou para o horizonte e continuou falando, meio que para si mesmo, quase se esquecendo que o sobrinho estava ali:
— Nosso instinto reprodutivo nos diz pra ir em frente, mas nosso instinto de preservação no avisa pra ter cuidado: "Olha, você já se deu mal antes, pode ser que aconteça de novo, vai com calma"... O problema é que, na maioria das vezes, por algum motivo, a gente acaba não dando ouvidos pra esse instinto de preservação. E as mulheres sempre nos dão um empurrãozinho no sentido de ignorar todos os avisos. Começam assim, como quem não quer nada. Primeiro, elas te roubam um beijo. Depois, te roubam o sono. E se você não tomar cuidado, elas roubam todo o resto: sua vida, seus sonhos, sua felicidade... Sua alma! Até que chega um belo dia e você finalmente se dá conta disso, mas aí já é tarde demais: ela já te trocou por outro e ainda por cima conseguiu te convencer de que a culpa é toda sua, que você é que foi incompetente demais e não conseguiu segurá-la perto de você... E você daria tudo pra voltar no tempo e...
De repente, Jorge se deu conta de que estava falando demais. Olhou para o sobrinho, que o encarava fixamente. Sorriu, sem graça, e disse:
— Mas tudo bem. Você ainda é muito criança pra se preocupar com isso. Mesmo se alguém porventura quebrar o seu coraçãozinho, você ainda tem muito chão pela frente. Seu coração é novinho em folha. Eu é que tô velho demais. Meu coração não dá mais conta do recado, não agüenta mais tanto sobressalto, tanta desilusão, tanta tristeza... Velho demais...
E calou-se, contendo a repentina e inexplicável vontade de chorar. Gabriel pensou um pouco, depois disse:
— Tio, seu coração... As células do seu coração são especializadas, como as do Pepe, né?
Jorge refletiu durante alguns instantes. Depois sorriu e abraçou o sobrinho. E ficou pensando que Gabriel tinha razão: alguém devia mesmo inventar a injeção de lagartixa.

FIM.

texto

 Escrito por John às 10h13 []



.:: Frutas-do-Conde, Lagartixas e Beijos Roubados - PARTE 2 ::.

Gabriel estava sentando no chão. Vendo o menino ali, brincando sozinho, Jorge enxergou a si próprio. Tinha tido uma infância solitária, não por falta de companhia, mas por escolha própria. Desde cedo, já parecia um desajustado, já parecia sentir que era diferente das outras pessoas e que não se encaixava no padrão. Aquele sentimento só fez aumentar com o passar dos anos. E agora, vislumbrava o mesmo futuro para o sobrinho. Aproximou-se dele, que, naquele instante, estava agachado, observavando alguma coisa na parede. Era uma lagartixa. Jorge agachou-se ao lado dele e ficaram lá os dois, olhando para o bichinho, que caminhava pela parede. Foi o menino quem falou:
— Eu gosto de lagartixas. Gosto de pensar que elas são uns dinossauros em miniatura.
O tio assentiu com a cabeça. Ficou pensando em algo interessante para dizer, até que soltou:
— Sabia que o rabo da lagartixa se regenera?
Gabriel virou-se e ficou olhando para ele, como que esperando a continuação da história. Jorge prosseguiu:
— É verdade. Se alguém cortar o rabo da lagartixa, com o tempo, ele cresce de novo.
— E do rabo cortado, nasce uma outra lagartixa?
— Não, aí também não. O rabo cortado, ele... Ele apodrece.
O menino voltou a observar a lagartixa, em silêncio. Era quase possível enxergar sua imaginação de criança, as engrenagens dentro de sua cabecinha se movendo a todo vapor. Até que ele finalmente disse:
— O Pepe, cachorro da dona Ilma, minha vizinha, foi atropelado. O corpo dele ficou dividido no meio, parecia que o carro tinha passado em cima e partido ele em dois!
O tio fez uma expressão piedosa. Gabriel perguntou:
— Por que o Pepe também não se "renegerou"?
— É "regenerou" que se fala. O Pepe não se regenerou porque as coisas não são assim tão fáceis...
O garoto continuou olhando para o tio, visivelmente insatisfeito com aquela resposta. Jorge suspirou. Não tinha sido um aluno lá muito aplicado nas aulas de Ciências na escola, mas ante o olhar insistente do sobrinho, tentou explicar, a seu modo:
— É mais ou menos assim: todos os seres vivos são formados por células, que são umas partículas muito, muito pequenas. As células do rabo da lagartixa são bem simples, pelo menos quando comparadas às células de... de um cachorro, como o Pepe, por exemplo. Assim, quando a lagartixa perde o rabo, por se tratar de uma coisa simples, ela consegue regenerar aquela parte. Já com o Pepe, a coisa muda de figura. As células dele não são nada simples...
— O Pepe é um bicho mais complicado, né?
— É. A gente costuma dizer que as células dele são... São especializadas. Por isso, o Pepe não consegue regenerar nenhuma parte do seu corpo.
— Entendi... E por que alguém não inventa uma injeção de lagartixa? Aí a gente podia dar essa injeção pro Pepe e as células dele iam conseguir regenerar o corpo...
— Bom, se isso fosse possível, as lagartixas iam valer uma fortuna.
— Tio Jorge, a gente pode cortar o rabo da lagartixa pra ver quanto tempo ela leva pra regenerar?
— Não, a gente não pode. Só porque ela consegue se regenerar não quer dizer que a gente possa fazer a bichinha sofrer. Isso é maldade.
— Hum, tá bom.
— Mas olha ali, um tatu-bola!
— Onde, onde?!

(CONTINUA...)

texto

 Escrito por John às 09h50 []



.:: Frutas-do-Conde, Lagartixas e Beijos Roubados - PARTE 1 ::.

— Fala, guri.
Ele estava ali, parado na porta, com o ombro apoiado no batente. Com uma das mãos, segurava uma xícara de alumínio fumegante, que provavelmente devia estar cheia de café. Tinha a cara toda amassada, de quem havia acabado de acordar. Gabriel, que estava sentado no segundo degrau da escadinha da varanda, virou-se para trás e respondeu:
— Oi, tio Jorge.
Tio Jorge era o irmão mais velho de sua mãe. Tinha chegado na madrugada anterior. Bêbado. Logo pela manhã, Gabriel tinha escutado os pais comentando o assunto, em voz baixa. O tio era escritor ("frustrado", gostava de salientar o pai) e, vez ou outra, aparecia lá no sítio para fazer um "retiro", como ele mesmo definia, para se dedicar ao "próximo livro". Mas Gabriel nunca via o tio escrever sequer uma linha. Ficava apenas zanzando dum lado para o outro. E bebendo. Quando não era uísque, era café. Como agora.
O tio caminhou pela varanda e foi se sentar na escadinha, junto com o menino. Quem visse os dois ali, lado a lado, não poderia negar que eram parentes. Eram muito parecidos, ambos haviam puxado o avô de Gabriel. E, apesar dos quase vinte anos que os separavam em idade, eles eram parecidos também no jeito de ser. Tinham ambos aquele ar meio triste e perdido dos sonhadores. Gabriel, que havia acabado de abrir uma fruta-do-conde, ofereceu ao tio:
— Quer?
Jorge olhou para a fruta por alguns instantes e depois fez uma careta:
— Não. Meus avós chamavam isso aí de pinha.
— É. Minha mãe sempre diz a mesma coisa.
Ficaram em silêncio por alguns instantes. Foi o tio quem tratou de quebrá-lo:
— Mas que diabo de nome é esse, fruta-do-conde?
— Meu pai disse que, há muito tempo atrás, tinha um conde que era muito rico. Ele era dono de uma porção de terras, todas com um monte de plantações. Ele vivia num castelo e era servido por um bando de criados. Os criados tinham que fazer tudo pro conde: dar banho nele, vestí-lo, dar comida pra ele... O conde era muito preguiçoso. Aí, um dia, logo depois do jantar, o conde tava comendo uma fruta. A fruta tava descascada, os criados tinham que descascar e cortar tudo pro conde, porque nem isso ele fazia. E aí o conde mordeu uma semente dentro da fruta e ficou uma fera! Cuspiu a fruta e a semente, disse que os criados eram uns incompetentes e vagabundos e mandou todos eles embora. E ainda expulsou os coitados das suas terras. Só que os criados eram protegidos por uma fada, que viu a cena toda e quis castigar o conde. Sabe o que a fada fez? Transformou todas as plantações do conde em fruta-do-conde, que é quase que só semente. E esse foi o castigo do conde: ele reclamou de uma semente e teve que passar o resto da vida chupando as sementes das frutas-do-conde.
— Hum, que bobagem! Aposto que seu pai inventou essa história só pra você não perguntar mais por que a fruta-do-conde se chama fruta-do-conde...
— É, eu sei disso. A história é toda cheia de furos. Por exemplo, por que o conde, que era tão preguiçoso, ia mandar todos os criados embora sem contratar outros no lugar?
— É mesmo.
— Mas tudo bem. Meu pai deve ter tido um trabalhão pra inventar essa história, o que vale é a intenção.
Jorge sorriu discretamente. Aos dez anos de idade, Gabriel era bem mais esperto que a maioria dos adultos que ele conhecia. Mas preferia não dizer isso em voz alta. Afinal, o garoto podia acabar ficando convencido demais.

(CONTINUA...)

texto

 Escrito por John às 10h46 []



A Grande Crise do Brócolis

Era um dia típico de semana, tão típico que nem é preciso dizer que dia era. No restaurante, os mesmos personagens de sempre: tinha a velha dona, que ficava no caixa e que, além de acertar as contas com os fregueses, recomendava este ou aquele prato ("o risoto de palmito está uma delícia!"). Tinha o filho da dona, que trabalhava como maître do restaurante e era casado com uma corretora de imóveis metida a dondoca, que dificilmente aparecia por lá. Em sua função de maître, era ele quem recepcionava o pessoal, indicava as mesas e, quando o serviço apertava, acabava dando uma mão para o garçom. Tinha o garçom, que nas horas vagas trabalhava também numa equipe de som que promovia bailes black na periferia. Tinha a chefe da cozinha, que recebia os pedidos e chefiava os cozinheiros. E tinha os cozinheiros, que não eram irmãos siameses. Eram um homem e uma mulher, mas não eram casados. Eram, na realidade, donos de personalidades distintas e histórias de vida bem diferentes, mas por não terem grande relevância nesta trama, serão sempre identificados assim, no plural: "os cozinheiros".
Ou seja, os personagens eram todos tão ordinários que nem é preciso batizá-los. Desta forma, aquele cliente gordo, que almoçava todos os dias no restaurante, será, daqui para frente, chamado apenas de "o maestro", pois alguém, em algum lugar, ouviu dizer que ele trabalhava "com a orquestra".
Pois bem, o maestro sentou-se na mesa de sempre (e, neste ponto, é importante dizer que ele sempre se sentava na mesa dezesseis). O maître se aproximou, deu um tapinha camarada em suas costas e disse:
— Tudo bem com o senhor? Quer que eu peça uma salada e aquele suquinho, enquanto o senhor olha o cardápio?
— Pode ser, respondeu o maestro, seco como de costume.
— Deixa comigo!
O maître deu outro tapinha, desta vez um pouco mais forte. Olhou para a chefe de cozinha, fingiu um ar circunspecto e fez um gesto com as mãos no ar, como se estivesse segurando uma batuta e regendo uma orquestra invisível. A chefe de cozinha riu baixinho e piscou, mostrando que tinha entendido o recado. Gritou para os cozinheiros:
— Abacaxi com hortelã na dezesseis!
De lá de dentro, começou-se a ouvir o barulho do liquidificador, enquanto a própria chefe se encarregava de montar uma salada com rúcula, alface, tomate e cenoura ralada, sem cebola. Nesse meio tempo, o restaurante começou a encher (era hora do almoço) e o maître e o garçom passaram a correr dum lado para o outro, feito baratas tontas, enquanto disparavam inúmeros pedidos. O suco e a salada do maestro ficaram prontos e a chefe tocou a campainha e gritou:
— Dezesseis!
A pedido do maître, o garçom correu até o balcão, pegou a bandeja, serviu o maestro e tirou do bolso o bloco de notas. Perguntou:
— O senhor já escolheu?
Sem nem olhar para o garçom (como de costume), o maestro respondeu:
— Filé de pescada à milanesa, brócolis e purê de mandioquinha. Dispenso o arroz e o feijão.
— É pra já!
Foi até o balcão, entregou o pedido para a chefe e repetiu em voz alta, como que para confirmar:
— Filé de pescada à milanesa, brócolis e purê de mandioquinha, sem arroz nem feijão, na dezesseis!
E correu de volta para atender as outras mesas, enquanto o maître flertava com uma senhora desquitada, mas ainda inteirona, que estava sentada na vinte e dois. Aqui, temos que avançar cerca de quarenta minutos no tempo, durante os quais a correria no restaurante aumentou ainda mais, bem como a gritaria no circuito mesa-balcão-cozinha. Sentindo a demora, o maestro cobrou seu prato umas três ou quatro vezes, de maneira cada vez mais ríspida, e já ameaçava se levantar e ir embora, quando a campainha finalmente tocou e a chefe gritou:
— Dezesseis!
Aliviado, o garçom correu até o balcão (o maître agora flertava com duas moças novinhas, sentadas na cinco) e pegou a bandeja. Foi quando se deu conta:
— Peraí... Cadê o brócolis?
A chefe franziu a testa:
— Que brócolis?
— O que eu pedi... O que acompanha a pescada e o purê de mandioquinha da dezesseis...
— Não tem brócolis.
— Mas é claro que tem, pode olhar aí na comanda...
— Não, eu quis dizer que não tem mais brócolis, acabou o brócolis!
— Como assim, acabou o brócolis?
— Acabou e eu te avisei.
— Avisou coisa nenhuma!
— Avisei sim! Assim que você me entregou a comanda, eu disse: "Acabou o brócolis, só temos couve refogada..."
— Mentira, eu não ouvi nada disso! E agora, o que eu vou dizer pro maestro?
— Tá me chamando de mentirosa?
A discussão começou a atingir um tom preocupante. O garçom e a chefe estavam praticamente aos berros e os fregueses já começavam a olhar, quando o maître decidiu intervir. Mas nem teve tempo de chegar ao balcão. A briga foi interrompida quando o garçom, visivelmente exaltado, gritou:
— Só porque você dorme com o filho da dona não quer dizer que você manda por aqui!
O maître parou onde estava, todos se calaram, mesmo o burburinho que vinha da rua pareceu se interromper por alguns segundos. A primeira a quebrar o silêncio foi a chefe, que, inesperadamente, começou a chorar. Soluçava feito uma criancinha. Os cozinheiros vieram de lá de dentro e tentaram consolá-la. O maître permanecia parado onde estava, como que congelado, mudo. O garçom, sem jeito e já arrependido da delação feita no calor da discussão, queria falar alguma coisa, mas não sabia bem o quê. No caixa, a dona começou a passar mal:
— Meu Deus, gente, que vergonha! Quanta humilhação! Na frente dos clientes!
E se abanava, com falta de ar. O garçom correu em seu socorro, com um copo d'água. No fundo, ele agora temia por seu emprego. Foi então que o maestro se levantou e, constrangido, dirigiu-se à saída. O garçom perguntou:
— Mas peraí, onde o senhor vai?
— Embora. Perdi o apetite.
E saiu, apressado. O maître finalmente conseguiu articular uma frase. Disse:
— Cancela a dezesseis.

texto

 Escrito por John às 16h10 []




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