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Efeito Colateral Pra Gente Normal
Olhou-se no espelho pela décima vez. Pôs as mãos na cintura, empertigou-se e ensaiou uma pose de modelo fotográfica durante alguns segundos, para em seguida largar o corpo, desanimada. Despiu a blusa e atirou-a num canto qualquer, como se dispensasse a carta errada num jogo de baralho. Virou-se de lado e analisou mais uma vez sua imagem ali refletida: sentiu-se branca e corcunda demais, o que evidenciava a barriguinha que ela começava a enxergar. Suspirou, desconsolada. Nisso, o telefone tocou. Berrou para a mãe, que estava lá embaixo, na cozinha: — Deixa que eu atendo! Pegou o aparelho sem fio que estava em cima da cama. A voz do outro lado da linha disse: — Sua vaca! Somente sua amiga Ana Cláudia conseguia ser assim tão fina ao telefone... — Oi, Ana, também senti sua falta hoje... — Poxa, Camila, sua tratante! Você vai se encontrar com o Zé Henrique hoje e nem ia me contar?! — Mas você nem foi na escola hoje, sua doida! — Só fiquei gripada, não surda. Ainda existe telefone, ingrata! — Hum... Aposto que foi a boca-aberta da Elaine que te contou. — Hahaha, é óbvio que foi ela! Como diz minha mãe, aquela ali não segura nem senha de banco... Mas me conta, quero saber detalhes! — Vou encontrar com ele agora à tarde, na porta do clube, depois que ele sair do treino. — Ai, e ele vai vir todo suado, que delícia... — Cala a boca, sua irritante! — Vai, conta mais! — Nada mais. — Como assim, nada?! Me diz, como você tá se sentindo? Tá nervosa? Afinal, é a primeira vez que vocês vão se encontrar depois da festa... — É... Não sei. Tô um pouco ansiosa sim. Mas sei lá... — "Sei lá"? Que história é essa? Você vai sair com um tudo-de-bom daqueles e me diz que "sei lá"? — É. Acho que eu sou meio estranha mesmo. — Pode ter certeza, queridinha. Aproveitou a pausa na conversa para experimentar outra blusa. Mas Ana Cláudia logo emendou outro assunto, do jeito histérico que lhe era peculiar: — Ah, sabe quem eu vi na rua hoje, na hora em que tava voltando do médico? — Quem? — Seu namoradinho Bruno. Tava andando junto com outros nerds e... — Ana, já te disse mil vezes! Ele não é meu namoradinho e nem nunca foi! — É, você já disse isso. Mas acho essa história meio esquisita. Vocês viviam grudados e, de repente, do nada, simplesmente pararam de se falar. Por acaso rolou alguma briga? Ele tentou se aproveitar de você? Ele tentou... — Ai, cala a boca! — Hahahaha, tá vendo? Você sempre sai do sério quando alguém toca nesse assunto. E não deve ser à toa. Aposto que, por trás de toda aquela amizade, tinha segundas intenções. Aposto que esse Bruno tinha uma tara secreta por você e pela... Ana Cláudia interrompeu a frase repentinamente ao perceber que estava prestes a dizer uma bobagem sem tamanho. Era possível notar o quão constrangida ela tinha ficado pelo tom de sua voz, quando começou a gaguejar e a se desculpar: — Ai, Cá, pelo amor de Deus, desculpa, eu não quis... Desta vez, foi Camila quem tratou de interrompê-la: — Tudo bem, Ana. Não tem problema. — Não, é sério, eu não quis... — Já falei. Desencana. Camila estava olhando para o espaço vazio em sua prateleira, onde antes havia um porta-retrato com uma fotografia sua ao lado de Bruno e de Ângela. Lembrava-se bem do momento em que havia decidido se desfazer daquele porta-retrato. Atirou-o com toda força em direção a um monte de lixo, num terreno baldio bem longe de sua casa. Saiu caminhando sem nem olhar para trás. Tinha catorze anos e isso foi logo depois que ela havia voltado do velório de Ângela... Quando soube que sua melhor amiga havia morrido, quase teve um treco. Chegou a desmaiar. Mas, curiosamente, durante todo o velório e o enterro, simplesmente não conseguiu chorar. Não derrubou uma única lágrima. Martirizou-se por isso. Seus pais tentaram tranquilizá-la, dizendo que era algo natural e que, devido ao choque, ela tinha ficado num estado meio catatônico. Disseram ainda que, com o tempo, a "ficha" ia "cair". Mas dois anos haviam se passado desde então e aquilo tudo parecia apenas parte de um passado longínquo. Como se tivesse acontecido numa outra encarnação. Camila sentiu-se incomodada com o silêncio repentino: — Fala, Ana. — O que? — Sei lá. Qualquer coisa. Me conta alguma coisa. Ana Cláudia começou a tagarelar a respeito do namorado de sua prima ou algo do gênero, mas Camila nem estava prestando atenção. Caminhou em direção ao armário e abriu-o. Apoiou o telefone sem fio no ombro e inclinou a cabeça para o lado, para segurá-lo. Enquanto isso, com as duas mãos livres, começou a vasculhar os cabides. Já não estava mais procurando um traje adequado para o encontro de mais tarde. Estava em busca da única peça de roupa velha que ainda guardava. Encontrou-a escondida debaixo dum pesado casaco de inverno. Tirou e abriu. Era um vestido do tipo indiano, daqueles compridos e folgados. Uma lembrança dos tempos em que ela teimava em esconder sua silhueta, sempre sob os protestos de Ângela. "Você é linda, fica se escondendo debaixo dessas roupas de freira!", dizia a amiga, que sempre forçava Bruno a se manifestar também, para ratificar sua opinião: "Não é, Bruno?". "É sim, Gê", ele respondia, sorrindo para Camila. Ela ficava sem graça, mas sentia uma estranha ponta de satisfação naquilo. A voz cortante de Ana Cláudia, ao telefone, de repente se fez ouvir: — Ah, não te contei! O Jorge disse que consegue o remédio pra semana que vem. — Ai, Ana, ele tinha dito a mesma coisa na semana passada... — Eu sei, mas é que é difícil conseguir essas coisas. A venda é controlada, tem que ter receita e tal... — Sei. Mas, escuta, não tem mesmo nenhum efeito colateral? Digo, pra pessoas... normais? — Você não precisa se preocupar com isso. No seu caso, vai ser até bom. Quem sabe o remédio não conserta essa sua cabecinha oca? — Engraçadinha... — Falando sério, pode ficar tranquila. Pra você ter idéia, soube por fonte segura que a Rebeca toma... Mas isso é em off, ok? — Rá! Sabia que aquele corpinho não era fruto só de academia. — Bom, semana que vem então. Já separa a grana. E, ó: quero saber tudinho do seu encontro com o tudão, hein? — Pode deixar. Beijo. — Beijo, amiga. Desligou o telefone e olhou mais uma vez para o vestido. Jogou-o de volta para dentro do armário. Escolheu uma blusinha decotada que deixava sua barriga à mostra. Olhou-se no espelho, deu uma volta e sentiu-se quase satisfeita. Encarou seu próprio rosto por alguns segundos. Fechou os olhos, suspirou e correu até o banheiro. Ajoelhou-se em frente ao vaso sanitário e enfiou o dedo na garganta. Como sempre, prometeu que era a última vez que faria aquilo. E ficou imaginando o que Ângela e Bruno diriam se a vissem assim. texto
Escrito por John às 18h44
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