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O casal, de mãos dadas, caminhava lentamente para fora do facho de luz que o holofote projetava. Os dois simbolicamente adentravam a escuridão, como se tivessem sido expulsos do paraíso. Era assim que terminava aquela peça de teatro. Na coxia, o dramaturgo aguardava, ansioso. Pareceram-lhe longos e intermináveis segundos de espera silenciosa, até que a platéia finalmente explodiu em aplausos. Sua primeira reação foi respirar aliviado. A ovação continuava e ele agora se sentia realizado, feliz com a aprovação do público. A cada grito, a cada assovio, seu peito se estufava e se enchia de mais orgulho. Envaidecido, sentiu-se todo-poderoso, como Deus: de umas míseras folhas de papel em branco, ele havia criado a vida! Todo o elenco da peça saiu então de trás das cortinas para saudar a platéia. Os espectadores se levantaram e começaram a aplaudir com ainda mais entusiasmo. Por algum motivo, o dramaturgo sentiu-se incomodado com aquela manifestação excessiva. Contrariado, tentou se convencer de que o público, em geral, é apenas uma massa de pobres ignorantes. Eles não compreendem que os atores nada mais são que meros instrumentos e que a grande, verdadeira e única arte é obra do autor. O casal de protagonistas correu até a lateral do palco e fez subir o diretor da peça. Uma das coadjuvantes entregou-lhe um buquê de flores. A platéia gritava e assoviava mais do que nunca. O diretor parecia encabulado, sorria sem-graça, segurava o buquê com uma das mãos e não sabia o que fazer com a outra. Da coxia, o dramaturgo segurava-se para não pular no pescoço daquele miserável que estava roubando seu momento de glória. Se pudesse, enviaria uma nuvem de gafanhotos e rios de sangue, mataria o primogênito daquele charlatão que queria tomar o seu lugar. Para o dramaturgo, não bastava ter criado aquilo tudo. Não era suficiente ver o sucesso de sua obra. Era preciso ter o crédito, reconhecimento. Era preciso que todos o admirassem, louvassem e repetissem seu nome. Não, não era por vaidade. Era apenas questão de... justiça, sim, justiça! E Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. texto
Escrito por John às 09h45
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