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Minha avó era cega. Mesmo assim, ela costurava. Manuseava com destreza a tesoura e a máquina de costura. Cortava uma porção de retalhos triangulares de diferentes tecidos e estampas. Com eles, fazia para cada neto um "futon", que é uma espécie de edredon japonês. Apesar de ser cega e de usar sempre os mais diversos retalhos, os "futons" da minha avó nunca resultavam num caos de estampas. Havia sempre uma inexplicável harmonia naquela variedade de desenhos, como se a disposição dos retalhos tivesse sido planejada, e não aleatória. Aquilo me intrigava muito e por isso eu ficava sempre sentado, observando-a costurar os "futons". Pelo que pude perceber, tudo o que ela fazia era separar os retalhos em pequenos montinhos desordenados. Talvez ela escolhesse quais usar pela textura do tecido ou algo semelhante. Eu tinha sempre vontade de perguntar a ela, pedir que me explicasse como fazia. Mas minha avó não falava português. "Danico", que era como ela me chamava, era uma das poucas palavras que ela dizia e que eu conseguia entender. Depois de um tempo, desisti de tentar saber como os "futons" eram feitos. A conclusão a que cheguei é que a visão e a fala (e toda a racionalidade e lógica que trazem consigo) às vezes só atrapalham. Deitado em silêncio, na escuridão do meu quarto, sentindo o calor e a maciez do meu "futon", eu pensava que tudo o que a gente precisa saber está na ponta dos dedos. texto
Escrito por John às 10h05
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