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A MISSÃO - Parte 4
Mais tarde, fiquei sabendo que a bruxa segurou o Santista e telefonou para a mãe dele, mandando-a vir buscá-lo. Não satisfeita, a bruxa ainda passou o maior sermão nela. Disse para a mãe do Santista que o moleque havia invadido sua propriedade e que estava prestes a furtar seu olho de vidro. Apanhado de surpresa, ele derrubou o olho no chão, trincando-o. Nesse meio tempo, o pai do Santista chegou em casa, completamente bêbado, e, não encontrando a mulher e nem o filho, virou uma fera. Quando eles finalmente chegaram de volta da casa da bruxa, ele quis saber o que estava acontecendo. Diante das ameaças do marido embriagado e descontrolado, a mulher não teve outra alternativa a não ser relatar o episódio. O homem saiu de si e deu uma surra brutal no filho. Ouviu-se a gritaria na rua inteira. Os vizinhos, revoltados, chamaram a polícia. Chegando lá, prenderam o pai do Santista e levaram-no detido. Instruíram a mãe a dar queixa na delegacia, onde o Santista passou por um exame de corpo de delito e teve que prestar depoimento, acusando o próprio pai. Uma baixaria. Somente uma semana depois disso é que o Santista voltou a freqüentar o grupo escolar. Ainda era possível ver os sinais da surra em seu corpo - arranhões, hematomas e, ainda pior, seu espírito totalmente quebrado. Ele havia mudado, parecia outra pessoa - tinha ficado ainda mais quieto, sério e retraído. Passou a se sentar numa cadeira bem afastada de nós e não queria mais saber de conversar e nem de brincar com ninguém. Entrava na sala mudo e saía calado, até que um dia simplesmente parou de freqüentar as aulas de vez. Disseram até que ele tinha voltado para Santos com a mãe. O Batra também acabou ficando todo esquisito depois que soube que o Santista tinha apanhado feio do pai por causa da aventura na casa da bruxa. Talvez ele se sentisse, de alguma forma, culpado por tudo aquilo que tinha acontecido, sei lá. Afastou-se de mim completamente. E foi assim que nosso "clube" encerrou as atividades. Numa tarde das mais quentes, porém, eu estava andando de bicicleta e, por algum motivo, decidi ir até o lago. Talvez quisesse matar as saudades. Chegando lá, encontrei o Batra sentado no chão, encolhido, com os braços segurando os joelhos e olhando para o horizonte. Desci da bicicleta e, sem dizer palavra, pus-me ao lado dele. Catei algumas pedrinhas no chão e comecei a atirá-las na água. Ficamos assim, em silêncio. Até que o Batra disse: — Não é possível. Ele era valente. Topava todos os meus desafios. Sempre me vencia. Não respondi nada. Reparei que uma lágrima escorria dos seus olhos. Ele disfarçou, eu fingi que não tinha visto e atirei outra pedra na água. Ele repetiu: — Não é possível. Eu não respondi nada. Ele acrescentou: — Tão valente... Por que ele se acovardou? Por que não enfrentou? Eu não entendi muito bem. Quem será que o Batra queria que o Santista tivesse enfrentado? A bruxa ou o pai? Sem saber exatamente por que motivo, respondi: — A culpa é da bruxa... Ficamos calados por mais alguns instantes. Até que o Batra levantou repentinamente: — É isso mesmo! Fiquei olhando para ele, sem entender. Ele se virou para mim: — Você tá certo, Pulga! A culpa é da bruxa! Franzi a testa. — Você não percebe? Antes ele era valente e, de repente, virou um covarde! Continuei olhando para ele. — A bruxa jogou um feitiço nele! A bruxa fez com que ele ficasse quietinho, obediente... Que nem um cachorro! Repeti as últimas palavras do Batra, como que tentando entender: — Que nem um cachorro... — É! Você não vê? Em vez de transformar ele num cachorro de verdade, a bruxa só jogou um feitiço, que fez ele ficar adestrado! Adestrado que nem um cachorro! De repente, tudo fez sentido. — É mesmo, Batra! Você tem razão! A gente tem que fazer alguma coisa! — Eu te digo o que a gente vai fazer: a gente vai lá enfrentar essa bruxa. A gente vai obrigar ela a desfazer esse feitiço! E talvez isso até traga o Santista de volta... — É... E quando a gente vai lá? — Quando? Agora mesmo, pô! — Então vamo! E lá fomos, o Batra e eu, em direção à casa da bruxa. Rumo à missão mais importante do nosso "clube".
.: FIM :. texto
Escrito por John às 09h53
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A MISSÃO - Parte 3
O Batra ainda olhava para o Santista, incrédulo. Até que respondeu: — Muito bem. Só que tem que ser sem trapaça, viu? Eu e o Pulga vamo vai ficar ali, trepados no muro, vigiando você. — Ei, por que é que eu tenho que trepar no muro também? Vai só você! Nenhum dos dois me deu ouvidos. Ambos correram até a casa e começaram a escalar o muro. Eu estava um pouco receoso, mas a curiosidade falou mais alto. Juntei-me a eles. Chegando mais perto da casa da bruxa, era possível sentir um cheiro forte de cachorro molhado, o que me deixou um pouco enjoado e ainda mais nervoso. Pedi para o Batra me dar uma mão. Consegui subir e imitei-o, sentando em cima do muro. Ficamos os dois escondidos atrás do galho maior duma árvore cujo tronco saía do quintal da casa. Dali, a impressão de abandono era ainda maior: havia inúmeros vasos, nos quais as plantas quase sumiam, cercadas por um monte de ervas daninhas. No chão, vários montinhos de fezes de cachorro, com moscas sobrevoando. O cheiro conseguia ser pior e meu enjôo aumentou. O Santista já havia pulado o muro e caminhava com cautela por aquele verdadeiro "campo minado". Quando chegou mais perto da porta da casa, ele pulou de susto e eu e o Batra quase caímos lá de cima do muro: havia uma dezena de cachorros atrás de uma grade de ferro, próximo à porta, e todos eles começaram a latir ao mesmo tempo. Eram vira-latas, alguns já velhos, outros mais novos, mas todos com uma aparência imunda e raivosa. Ouvimos uma voz rouca e esganiçada, berrando de dentro da casa: — Quietos! Quietos! O que é que deu em vocês? Era a voz da bruxa! Fiz menção de pular do muro e sair dali correndo, mas o Batra segurou-me pelo braço e apontou com o dedo em direção à casa. Uma velha, aparentando ter mais de cem anos de idade, toda torta e enrugada, saiu de lá de dentro. O mais impressionante, no entanto, era que, no lugar onde deveria estar seu olho direito, havia apenas um buraco fundo - e não tinha olho de vidro nenhum tapando-o. Com reflexos rápidos, o Santista havia se escondido atrás de um dos vasos de plantas, poucos segundos antes da bruxa aparecer. A velha caminhou até em frente à grade de ferro e continuou mandando os cachorros se calarem. Quanto mais eles latiam, mais ela gritava. Abriu então o portão e entrou no canil. O Batra, que ainda me segurava pelo braço, apertou ainda com mais força quando vimos o Santista se esgueirando por detrás do vaso e entrando dentro da casa da bruxa, enquanto ela estava dentro no canil, numa manobra totalmente arriscada. Nossos corações, já disparados, quase saltaram pelas nossas bocas quando a bruxa saiu do canil, fechou o portão e entrou de volta em sua casa. O Batra deixou escapar um fiapo de voz: — Caraca! Agora danou-se! Passaram-se só alguns minutos, mas para nós pareceu uma eternidade, durante a qual as mais terríveis hipóteses passaram pelas nossas cabeças. Imaginamos o Santista dentro do caldeirão da bruxa, prestes a virar comida de cachorro. Até que finalmente um vulto apareceu na porta: era o Santista! Olhou ao redor, como se procurasse algo, e então nos viu em cima do muro, atrás da árvore. Abriu um sorriso como eu nunca tinha visto antes e ergueu o braço, vitorioso: tinha nas mãos uma pequena esfera, que refletia a luz do sol e que mais parecia um... um olho de vidro! Soltei um grito de empolgação e percebi que o Batra mal podia acreditar no que estava vendo. O Santista, quem diria, havia vencido o desafio e iria se tornar chefe do "clube" durante um mês inteirinho. Foi quando a mão enrugada da bruxa agarrou o braço do Santista, que imediatamente virou-se para ela e, sem querer, deixou cair o olho de vidro no chão. A velha deu um berro ainda mais esganiçado: — Seu moleque! O que você pensa que tá fazendo? Com o susto, o Batra desequilibrou-se e, como ainda estava segurando meu braço, levou-me junto em sua queda de cima do muro. Caímos para trás, do lado de fora da casa e, instintivamente, começamos a correr desesperadamente para longe, na direção do lago. Corri o mais rápido que pude e, naquele dia, se o desafio do Batra fosse um corrida, eu teria vencido com certeza. Quando chegamos no lago, nos jogamos no chão, prostrados pelo cansaço. Ficamos ali deitados por uns longos minutos. O nervosismo, aliado ao esforço físico repentino, me fizeram ter uma crise: eu não conseguia respirar. O Batra percebeu que algo estava errado, se aproximou de mim e perguntou: — Ô, Pulga, tá tudo bem? Eu mal conseguia respirar, muito menos falar. Fiz que não com a cabeça. Ele então perguntou, desesperado: — Caraca, que que eu faço? Com muito esforço, consegui articular uma única palavra: — Bom... bi... nha... — Onde tá? Tá na sua casa? Fiz que sim com a cabeça. — Guentaí então, eu já volto! E saiu em disparada. Enquanto eu lutava para tentar puxar um pouco de ar para dentro dos meus pulmões, não conseguia parar de pensar na bruxa. A imagem do buraco vazio no lugar do olho não me saía da cabeça. Também estava preocupado com o Santista. O que será que a bruxa iria fazer com ele? Estava absorto nisso quando o Batra voltou. Mas não estava sozinho: meu irmão mais velho tinha vindo com ele. — Caramba, moleque! O que é que você andou aprontando, hein? Ele e o Batra me levaram para casa, onde minha mãe já me esperava, ansiosa. Puseram-me na cama, fizeram-me usar a bombinha e mandaram-me repousar. Se eu não melhorasse, minha mãe ia chamar o doutor Oswaldo lá na cidade. Mas não foi preciso. À noite, eu já estava recuperado. Mas precisava saber notícias do Santista. Minha preocupação aumentou quando ele não apareceu na aula no dia seguinte e nem nos outros.
(Continua...) texto
Escrito por John às 10h06
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A MISSÃO - Parte 2
Para variar, fui o primeiro a chegar no ponto de encontro do "clube" no dia seguinte. Nós três nos reuníamos religiosamente todas as tardes (depois da escola e do almoço), na beirada do lago que ficava atrás da casa do Batra. No começo, eu e o Santista questionávamos por que o ponto de encontro tinha que ser perto da casa dele, mas ele apenas respondia que era o líder do "clube" e que isso era motivo suficiente. Depois de um tempo, nos cansamos de reclamar e acabamos nos resignando. Além disso, havia a vantagem de que a mãe do Batra sempre mandava a Rosi nos levar um copo de leite ou, nas tardes mais quentes, de suco. O Santista chegou logo em seguida. Fizemos o "cumprimento secreto" e ele perguntou se eu queria jogar bolinha de gude enquanto o "chefinho" não chegava. Era assim que ele ironicamente se referia ao Batra na ausência dele e eu me divertia com isso. Aceitei o convite e ficamos entretidos com a brincadeira por uns bons quinze minutos. Até que o "chefinho" chegou, caminhando calmamente. Irritava-me saber que o Batra era o que morava mais perto e, mesmo assim, era sempre o último a chegar. — Esse joguinho de vocês vai ter que fica pra mais tarde. Já sei o que o "clube" vai fazer hoje... O Batra disse aquilo de maneira pomposa. Ele era exagerado, sempre anunciava suas idéias como se fossem a oitava maravilha do mundo. Eu e o Santista ficamos calados de propósito, pois sabíamos que o Batra estava morrendo de vontade que algum de nós perguntasse quais eram os planos. Estávamos certos: — E aí, ninguém quer saber o que a gente vai fazer? Enquanto o Santista recolhia calmamente as bolinhas de gude num saquinho, respondi: — A gente já sabe, Batra. Ontem você ficou repetindo o tempo inteiro que hoje ia ter "nêga"... Então, hoje é o dia da grande revanche do Sapo contra o Peixe... O Santista riu. De vez em quando, nos o chamávamos de Peixe, em referência ao time de futebol. O Batra fez cara de desdém. — Tá todo engraçadinho hoje, hein, nanico. Pois fique sabendo que não é nada disso. Eu tenho um desafio. E dessa vez até uma pulga asmática que nem você pode participar... Não pude deixar de arregalar os olhos. Voltei-me para o Santista, que tinha ficado igualmente perplexo. O espanto era porque todos os desafios que o Batra propunha sempre consistiam em provas físicas. E eu duvidava que, dessa vez, ele pudesse vir com algum tipo de enigma de raciocínio, pois ele sabia muito bem que não havia charada que eu não pudesse desvendar. Era possível ver o brilho de satisfação no olhar dele. — Arrá! Agora vocês tão interessados, né? Ficou lá, com um sorriso nos lábios, calado, saboreando seu triunfo. Até que eu perdi a paciência: — Vai logo, desembucha! — Então, eu tenho um desafio diferente hoje - e você vai poder participar também, Pulga. Mas pra isso, vocês têm que me seguir, sem fazer perguntas... — Seguir pra onde? — Ah, eu disse "sem perguntas"! Suspirei. Não havia outro remédio a não ser fazer a vontade do Batra, deixá-lo curtir seu momento de glória. Olhei para o Santista, que me devolveu o olhar e deu de ombros. Fomos atrás do Batra. Caminhamos pela estradinha de terra, na direção oposta à que levava à minha casa e à do Santista. Mas ao invés de seguir até a cidade, pegamos um desvio por uma pequena trilha. Eu sabia aonde aquele caminho conduzia, mas pensei que o Batra não ia ter coragem de nos levar até lá. Vi que estava enganado quando paramos em frente a uma casa solitária, caindo aos pedaços. Tinha muros altos e parecia abandonada. Ficamos ali, observando, até que o Batra quebrou o silêncio: — Chegamos. É a casa da bruxa. Senti um arrepio quando ele disse aquilo. Corria a lenda de que ali naquela casa morava uma velha bruxa, que, de tão velha, já era caolha. No lugar onde antes exisita um olho, havia agora apenas um buraco, que ela cobria com um assustador olho de vidro. Ela vivia sozinha, cercada por dezenas de cachorros. Segundo diziam, aqueles cachorros, na verdade, um dia foram crianças que ousaram se aventurar na casa da bruxa. Utilizando-se da mais poderosa magia negra, ela havia as transformado em cachorros e as aprisionado para sempre. Lembrava-me de, certa vez, ter perguntado para o meu pai sobre essa história. Ele me respondeu: — Ah, eu também já soube disso. Mas também já ouvi dizer que os cachorros são demônios disfarçados. E que a bruxa aprisionava as crianças não para enfeitiçá-las, mas sim para cozinhá-las num caldeirão e serví-las de comida para esses cães do inferno! Minha mãe detestava quando meu pai falava assim. Ela o reprimiu: — Querido, você quer parar de ficar botando essas minhocas na cabeça das crianças? Depois, elas vão acabar acreditando nessas bobagens e vão sair por aí repetindo esses absurdos! Meu pai pediu desculpas e disse que ela estava certa. Mas quando mamãe voltou aos seus afazeres, ele piscou para mim. Eui estava perdido nessas lembranças quando o Batra disse: — O grande desafio de hoje é o seguinte: eu duvido que algum de vocês seja homem suficiente pra pular o muro, entrar na casa da bruxa e roubar o olho de vidro dela! Respondi: — Mas que droga de desafio é esse? O que é que a gente ganha com isso? — Hahaha, você é mais covarde do que eu pensava, hein, Pulga? Mas, se isso serve de incentivo, lá vai: quem trouxer pra mim o olho de vidro da bruxa vai virar o líder do "clube" durante um mês. Um mês inteirinho! Fiquei calado. Nunca, em toda a história do "clube", a liderança havia estado assim, ao nosso alcance, como prêmio para um desafio vencido. Seria muito bom poder usufruir das vantagens de ser o líder, ainda que fosse por um período de tempo tão curto assim. Por outro lado, eu não sabia se valia a pena se arriscar tanto. Afinal de contas, entrar na casa da bruxa era uma coisa. Agora, roubar seu olho de vidro era bem diferente! Não, isso era mesmo muito arriscado. Foi quando o Santista disse: — Eu topo. Olhamos para ele. Provavelmente, o Batra não esperava que alguém aceitasse o desafio assim, tão prontamente.
(Continua...) texto
Escrito por John às 10h38
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A MISSÃO - Parte 1
— "Tu" é um frouxo! Tinha uma das mãos na cintura e a outra apoiada no muro. O rosto estava todo vermelho e a respiração ofegante. Tinha só dez anos, mas era quase da altura de um adulto baixo - o Batra era mesmo um menino bem grande para sua idade. Pela imponência de seu porte físico, era respeitado e temido na vizinhança. Por isso mesmo, nada mais natural que ele fosse o líder do nosso "clube secreto". — "Tu" é MUITO frouxo! O Batra enfatizou a ofensa, dirigida ao Santista, que estava de pé, com o tronco inclinado para frente e as duas mãos apoiadas nas coxas. Sua respiração era igualmente ofegante. Seu nome, na verdade, era Rodrigo, mas ninguém o chamava assim. Graças à sua origem e ao seu sotaque, todo mundo no grupo escolar o chamava de Santista, desde que ele havia chegado à cidade. Sempre que o Batra queria provocá-lo, imitava seu jeito de falar, substituindo o "você" pelo "tu". Isso quando não resolvia imitar o sotaque... — "Tu" é um "freixco"... Dessa vez, conseguiu fazer o Santista erguer a cabeça e encará-lo. Sorriu, provocador. — Vamo lá, Santista. "Tu" vai amarelar? É melhor de três... O Santista mediu o Batra de cima a baixo com o olhar. E respondeu apenas: — O Pulga conta de novo. Sobrou para mim. Eu era sempre mediador, juiz e platéia das disputas entre os dois. Não tinha condições de acompanhá-los nas atividades físicas, por causa da bronquite. Em compensação, superava-os em intelecto - nessa questão, não havia nem competição. Com o pé, tracei um risco no chão de terra e coloquei-me de lado, dando a ordem: — Às suas marcas! Posicionaram-se lado a lado, exatamente como os atletas faziam nas Olimpíadas. O Santista olhava fixamente para frente, mas o Batra o encarava. Fiz a contagem: — Preparar... Apontar... JÁ! Saíram em disparada, correndo por um circuito imaginário, que acompanhava o muro dos fundos da casa do Batra, seguia ladeira abaixo pela trilha de terra batida e dava a volta em torno do laguinho. Mesmo sendo o líder incontestável do nosso "clube", o Batra sentia o tempo todo uma necessidade de se afirmar como tal. Por isso, vivia desafiando o Santista para provas como essa corrida tola e sem propósito. O Santista sempre resistia no começo, mas no final acabava cedendo e aceitando os desafios. Já tinham chegado no lago, com o Batra levando uma ligeira vantagem. Imaginei que, enquanto corria, soltava pequenas provocações e ofensas ao Santista. Era mesmo um fanfarrão. Quando vencia as provas, passava o resto do dia se gabando. Mas quando perdia, ficava mau-humorado, de cara fechada, resmungando - era um péssimo perdedor. Já o Santista era praticamente o oposto: estava sempre sério, quase nunca ria e jamais contava vantagem. Se perdia, isso não parecia fazer a menor diferença para ele. Na verdade, eu não conseguia nem entender por que ele topava entrar nessas disputas com o Batra. O Santista era um pouco mais velho que eu e o Batra, tinha onze anos. Contornaram o lago e entraram na reta final. Nesse momento, o Santista deu um pique e conseguiu ultrapassar o oponente. E foi com um corpo de vantagem que ele passou por mim, a linha de chegada. O Batra passou logo na seqüência, capengando. Como o Santista nunca fazia graça, senti-me na obrigação de tirar um sarro do perdedor: — Hahaha, de novo, Batra? Assim não tem nem graça: numa melhor de três, você perde as duas primeiras. Nem pra ganhar a segunda e deixar a emoção pra volta final... — Cala a boca, nanico, quer apanhar? — Hahaha, é sempre assim. Quando você não tem argumento, já parte logo pra ameaça... O Batra passou por mim e deu um murro no meu ombro. Doeu, mas valeu a pena: era ótimo vê-lo engolir todas as bravatas de antes da corrida. Largou o corpanzil na grama e sentou-se com as costas apoiadas numa árvore. Virou-se para o Santista: — Você ganhou, mas não vai ficar assim. Vai ter "nêga"... O Santista, que estava sentado no chão e encostado no muro, não respondeu nada. Apenas fez um gesto com as duas mãos, como se dissesse "pode mandar". Nessa hora, a Rosi, empregada que trabalhava na casa do Batra, apareceu, carregando uma bandeja com uma jarra e três copos. A jarra estava cheia de um líquido alaranjado, que desconfiei ser suco de pitanga. A Rosi disse: — Felipe, sua mãe disse que é pra você tomar esse suco com seus amiguinhos e depois entrar, porque você ainda tem que fazer o dever de casa. Já brincou bastante hoje. — De que que é o suco, Rosi? — Pitanga. — Putzgrila, de novo? Não tinha outro não? — Jesus, menino, como você reclama, hein? Tá doido, lá em casa não tem essas mordomias não. Meus meninos tomam o que tiver e ai deles se eles reclamarem. — Ai, Rosi, tá bom, vai. A gente não tá na sua casa e ninguém disse que a gente não vai tomar o suco. Eu e o Santista já estávamos bebendo. A Rosi serviu um copo para o Batra, que tomou tudo em três goles. Virou-se para a empregada e disse: — Rosi, tenho uma coisa muito importante pra te falar... — Que que é, menino? O Batra soltou um sonoro arroto, arrancando risadas até do Santista.. Ele era um verdadeiro mestre nessa arte: conseguia arrotar bem alto, durante muito tempo, num tom grave e vibrante, como um coaxar. Não era à toa que tinha ganhado o apelido de Sapo, depois mudado para Batráquio. Ou Batra, para os mais íntimos. — Credo, menino, como você é porco! Se fosse meu filho já tinha levado uns cascudos! Eu aproveitei a deixa e disse: — Porco não, Rosi. Ele é um sapo. Um batráquio. Ba-trá-quio! Pronunciei as três sílabas pausadamente, arrotando em cada uma delas. O Batra e o Santista se jogaram no chão de tanto rir. O Batra virou para mim: — Hahaha! Caraca, Pulga! Você ainda tem que me ensinar a fazer isso! Hahaha! A Rosi estava inconformada: — Jesus, vocês são uns capetas mesmo. Deixa a mãe de vocês ficar sabendo disso. Felipe, se já terminou o suco, vamos entrar. Ou quer que eu fale pra sua mãe vir te buscar aqui fora agora mesmo? — Tá bom, Rosi, já tô indo... A empregada recolheu os nossos copos. Juntamo-nos em círculo e fizemos nosso "cumprimento secreto". O Batra, como líder, então falou: — Amanhã, no lugar de sempre, na mesma hora. Apontou o dedo para o Santista: — E amanhã vai ter a "nêga", hein... O Batra foi entrando, acompanhado pela empregada. Eu e o Santista tomamos o rumo de casa. Fomos caminhando juntos pela estradinha de terra. Ele morava ainda depois de mim. Geralmente, íamos conversando sobre algum gibi ou sobre um filme de faroeste que tinha passado na tevê. Gostava de conversar com o Santista, apesar de ele ser sério demais para um menino de onze anos. Certa vez, tinha ouvido minha mãe conversando com a vizinha. Estavam falando que a família do Santista era meio problemática, que o pai bebia e batia nele e na mãe. Obviamente, eu nunca tinha comentado sobre isso com o Batra. E também não tinha coragem de puxar esse assunto com o Santista. Chegamos à minha casa e fizemos o "cumprimento secreto" de novo. Subi os degraus e, quando cheguei à varanda, olhei mais uma vez para o Santista, que continuava caminhando cabisbaixo pela estradinha de terra.
(Continua...) texto
Escrito por John às 11h26
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