| |
Devia ter uns cinco ou seis anos de idade, pois, se não estava enganada, foi no mesmo ano daquela fatídica Copa do Mundo. Lembrava-se de assistir o jogo em que a seleção foi eliminada e lembrava-se de ter chorado de decepção - a camiseta amarela, a bandeirinha, a torcida, tudo em vão. Estava na casa de praia da família. O pai e o tio Lúcio queriam pescar no dia seguinte e, para isso, precisavam ir até a praia para caçar as iscas. Ela insistiu para ir junto, pois tinha ficado curiosíssima quando viu o pai sair da edícula carregando um balde e aquele instrumento engraçado. Disse que era uma bomba, mas parecia mais uma seringa gigante, feita com um tubo marrom de PVC e um êmbolo improvisado atrás. Já era fim de tarde, a praia estava praticamente vazia e havia poucas pessoas caminhando pela orla. Chegaram até a parte em que a areia fica molhada e o pai anunciou que iam "pegar corruptos". "Pegar o quê?", ela perguntou. "Corruptos, são uns camarõezinhos pequenos que vivem na areia da praia e que a gente usa como isca para pescar", respondeu o tio Lúcio. Ela torceu o nariz, desconfiada como é a maioria das crianças nessa idade. Mas o pai resolveu fazer uma demonstração prática. Explicou que os corruptos cavam um buraco na areia molhada, onde é mais fácil, e se enterram lá no fundo. Tudo o que tinham a fazer era achar um buraco de corrupto e usar a bomba para tirá-lo de lá. Foi ela mesma quem achou o primeiro e lá se foram os três. Tio Lúcio ficou um pouco afastado, procurando outros buracos. Enquanto isso, o pai posicionou o tubo de PVC bem na direção do buraco de empurrou-o com força para dentro da areia. Em seguida, puxou o êmbolo, exatamente como se faz com uma seringa. Tirou o tubo e empurrou o êmbolo. Ela observava tudo atentamente. A bomba "cuspiu" uma porção de areia e água, mas também um pequeno camarão. Ela deu um grito estridente e pulou satisfeita. O pai sorriu e o tio Lúcio deu uma gargalhada e balançou a cabeça. "Crianças..." Partiram então atrás de mais corruptos. O pai deixou ela tentar pegar um, mas ela não tinha força suficiente para manusear o êmbolo. Limitou-se a pegar os corruptos depois que a bomba os "cuspia". O tio incentivava, dizia que ela tinha que ser rápida, senão os corruptos fugiriam cavando outro buraco na areia. Ela corria, apanhava o camarãozinho - às vezes dava outros gritinhos histéricos quando eles se mexiam em sua mão - e os atirava dentro do balde. Depois de uma hora, já tinham praticamente enchido o balde. Estavam satisfeitos e o pai mandou-a lavar as mãos no mar. Os dois ficaram discutindo detalhes da pescaria da manhã seguinte e ela caminhou até a beira do mar. Andava com passos leves, olhando para a areia, pois queria ver se surpreendia algum corrupto cavando seu buraco. Deixou a água chegar até os joelhos, pois de nada adiantaria lavar as mãos no raso, elas ficariam cheias de areia. E foi justo quando ela se preparava para colocar as mãos dentro d'água que aconteceu: pela primeira vez em sua vida, viu um cavalo-marinho. Quer dizer, já tinha visto nos desenhos-animados e nas revistas, mas nunca daquele jeito, de verdade, bem na sua frente. Ficou ali, hipnotizada, com as mãos paradas no ar, quase nem respirava. Era um bicho estranho e, apesar disso, não conseguia tirar os olhos dele. Parecia mesmo com um cavalo, como os que vira na fazenda do vovô. Era lindo. Sentiu-se tentada a chegar mais perto, mas só de mover lentamente sua perna na água, o cavalo-marinho saiu em disparada e sumiu no mar. Ficou ali parada ainda durante alguns minutos, até que finalmente gritou para o pai que tinha visto um cavalo-marinho. O pai limitou-se a responder "Que legal, filha! Agora vamos embora que já está tarde, você ainda tem que tomar banho para jantar". Na volta, durante o caminho inteirinho, ficou falando sobre o bicho que tinha visto e esse foi também seu assunto na mesa de jantar. A mãe, atenciosa, ouvia a história que ela contava e de vez em quando a interrompia com alguma pergunta. Naquela noite, sonhou que montava o cavalo-marinho e este a levava para um passeio pela imensidão do mar.
***
Quase trinta anos haviam se passado e ela estava de volta à mesma praia. Era fim de uma tarde de inverno. Sentia frio nos pés porque, apesar do clima, calçava chinelos. Sentia-se estranha vestinho calças compridas e um moletom com capuz e calçando chinelos, mas sentiria-se ainda mais estranha se calçasse um par de tênis na praia. A paisagem havia mudado: a construção de um condomínio na ponta esquerda da praia e o represamento de um córrego tinham alterado a configuração da orla, fazendo o mar avançar consideravelmente na porção central e, consequentemente, alargando as laterais. Estava sozinha. Tinha deixado as crianças sob os cuidados de sua irmã, em casa. Sentia-se um pouco perdida. Seu recente divórcio havia deixado-a sem rumo, desnorteada. Por isso tinha decidido voltar à velha casa de praia da família. Estava em busca de alguma coisa perdida e achou que um passeio pelas memórias de infância a ajudaria. Lembrou-se de seu encontro com o cavalo-marinho e sorriu. Nunca mais tinha visto outro bichinho daqueles ao vivo. Tirou os chinelos, segurou ambos com a mão direita e pisou na areia fofa da praia. Respirou fundo e começou a andar em direção à água, decidida a procurar o cavalo-marinho. Deteve-se no meio do caminho. Pensou que não havia a mínima chance de encontrar outro cavalo-marinho - uma experiência daquelas é algo único na vida de uma pessoa. Resignou-se. Largou os chinelos na areia, sentou-se em cima deles e chorou. Chorou como se tivesse seis anos de idade. texto
Escrito por John às 11h33
[]
Era sempre o mesmo sonho, que se repetia exaustivamente noite após noite: encolhido num canto escuro, eu sentia vontade de chorar, mas as lágrimas haviam secado. Todas as ruas haviam mudado de nome, os locais conhecidos haviam sido derrubados e substituídos por novas construções. E eu não via um só rosto familiar: todos os entes queridos haviam desaparecido e, em seu lugar, surgira uma multidão de pessoas estranhas. De pensar nisso, eu me encolhia ainda mais e sentia fome. Alguns diziam que eu devia procurar ajuda médica. Outros afirmavam que a explicação era bastante simples: aquele sonho obsessivo poderia ser interpretado como o meu medo exagerado da solidão. De fato, há tempos eu vivia assim, sem ninguém ao meu lado. Era instrospectivo, taciturno, trazia sempre o semblante grave. Já nem me lembrava mais se eu sempre tivera esse espírito ou se isso era fruto da solidão. Os mais próximos tentavam me ajudar, me apresentavam pessoas, mas alguma coisa sempre dava errado. Criticavam-me, diziam que eu era exigente demais. Mas a verdade é que eu nunca tinha encontrado alguém que me encantasse. E eu parecia fadado a sonhar sempre o mesmo sonho, noite após noite. Até que eu a conheci. Ela freqüentava a casa de alguns conhecidos. Não tinha uma beleza estonteante, mas tinha algo que me atraía. O corpo magro e curvilíneo, a pele alva, que contrastava com os lábios de um vermelho intenso. O que mais me impressionou, no entanto, foi que desde que a vi pela primeira vez, aquele sonho nunca mais se repetira. Não podia ser coincidência. Precisava saber mais a respeito daquela mulher que, sem nunca ter me dirigido a palavra, havia reestabelecido a paz em meu sono. Os amigos, em princípio, tentaram me dissuadir. Contaram-me que ela era esnobe e antipática, que nunca cedia às investidas dos homens (os mais maldosos, inclusive, duvidavam que ela se interessasse por algum...). Mas fiz-me surdo a todos esses comentários e meu interesse por ela crescia mais e mais. Por fim, resignaram-se e decidiram me apoiar - afinal, éramos ambos bastante estranhos, talvez fôssemos mesmo feitos um para o outro, era a conclusão a que eles haviam chegado. Havia uma grande festa marcada para dali a alguns dias e foi decidido que aquela seria a grande ocasião. Afinal, ela também havia sido convidada. Estava apreensivo e mal podia me conter, tamanha a expectativa. Todos nós já tivemos essa sensação pelo menos uma vez na vida: a de que um determinado encontro vai ficar marcado para sempre na memória. Quando finalmente chegou o grande dia, eu estava agitado. Meus amigos me diziam para eu me acalmar, alguns até se aborreceram comigo. E com razão: eu não conseguia falar de outro assunto. Quando ela chegou à festa, toda a minha disposição aparentemente se foi. A visão de seu rosto, de seus lábios cor de sangue, me paralisaram. Ela ficou encostada na parede, observando a tudo e a todos, como se aquele baile fosse apenas um espetáculo cansativo organizado para tentar entretê-la. Uma mulher desacompanhada é algo que chama a atenção e não demorou para que um homem se aproximasse dela. Mas, com satisfação, observei-a dispensar a todos os que tentavam. Em determinado momento, nossos olhares se cruzaram pela primeira vez e eu senti meu corpo todo gelar. Ela me encarou fixamente. Parecia investigar minha alma. E começou a caminhar em minha direção. Enquanto ela se aproximava, tentei pensar em coisas inteligentes e espirituosas para dizer, mas meu nervosismo era tamanho que eu mal conseguia lembrar meu próprio nome. Ela chegou até mim e, sem dizer palavra, tomou-me pela mão e me conduziu até o salão, onde começamos a dançar. Mal pude acreditar, estava eufórico! Senti sua mão espalmada contra a minha, senti sua cintura, que eu envolvia com meu braço, senti sua respiração, seu perfume... E senti os olhares de todos ali, fixados em nós, alguns invejosos. Um arrepio percorreu minha espinha quando senti ela aproximar seus lábios de meu ouvido. Ela sussurrou: — Você é diferente. Parece carregar uma grande mágoa, como se alguém houvesse machucado profundamente seu coração. Você é exatamente como eu... Ela então mordiscou minha orelha e meu coração disparou, parecia querer saltar pela boca. Fiquei com medo que ela percebesse isso e me julgasse um tolo. Normalmente, eu enxergaria como defeito o fato de uma mulher tomar a iniciativa daquela maneira, mas me encolhi de prazer quando senti seus lábios encostando em meu pescoço. E em seguida, segui uma dor perfurante: ela estava me mordendo. Não deixou nenhuma gota de sangue escorrer, sugou-o todo. Minha vida parecia se esvair pelas minhas veias enquanto ela continuava sorvendo o precioso líquido vermelho. Ao mesmo tempo, sentia uma nova vida invadindo meu corpo - uma vida negra, escura, sombria. Abri a boca para pedir que ela parasse, mas a voz não saiu. Ela me beijou e pude sentir o gosto do meu próprio sangue nos lábios dela: trazia a lembrança do paladar de um milhão de banquetes. Mas agora estava infectado com um mal ancestral. Fechei os olhos e tive a impressão de que ia desfalecer. Quando abri os olhos novamente, já não estava no salão - estava num lugar que parecia uma floresta, com grandes árvores tristes. Era noite. Ela também já não estava mais em meus braços, havia desaparecido completamente. Comecei a caminhar, trôpego. As pernas obedeciam aos meus comandos, mas eu não as sentia, pareciam dois corpos estranhos colados no meu. Sentia novos cheiros, ouvia novos barulhos, parecia um mundo inteiramente novo. Enxerguei cruzes e lápides ao meu redor e entendi que não era uma floresta, era um cemitério. Continuei caminhando, como se guiado por alguma força sobrenatural, até chegar a um grande mausoléu gótico. Estava abandonado, como se não fosse visitado há muito tempo. Aproximei-me e vi que ali estava enterrada uma mulher morta séculos atrás. Olhei para o retrato apenas para confirmar o que eu já suspeitava: era dela o mausoléu. Entrei e deparei-me com o túmulo. Surpreendi-me com minha própria força quando consegui remover com facilidade o pesado tampo de concreto. Estava vazio. Não havia corpo nenhum ali. Parecia estar me esperando. Deitei-me lá dentro. Recoloquei o tampo em seu lugar. Desde aquela noite fatídica, já se passaram séculos. Às vezes eu sinto vontade de chorar, mas parece que todos o fluídos do meu corpo (lágrimas, saliva, suor) secaram juntamente com meu sangue. Todas as ruas mudaram de nome, os locais conhecidos foram derrubados e substitúidos por novas construções. Já não vejo nenhum rosto familiar: todos os entes queridos já morreram e, em seu lugar, surgiu uma multidão de pessoas estranhas. De pensar nisso, eu me encolho ainda mais dentro do túmulo e sinto fome. Mas não quero morder ninguém em busca de sangue. Recuso-me a passar essa maldição adiante. Ficarei aqui para sempre. Apenas com a solidão como companheira. E eu já não sinto mais medo. texto
Escrito por John às 10h38
[]
[ ver mensagens anteriores ]
|