Search this site powered by FreeFind


Histórico
 14/05/2006 a 20/05/2006
 03/07/2005 a 09/07/2005
 19/06/2005 a 25/06/2005
 12/06/2005 a 18/06/2005
 05/06/2005 a 11/06/2005
 22/05/2005 a 28/05/2005
 15/05/2005 a 21/05/2005
 08/05/2005 a 14/05/2005
 24/04/2005 a 30/04/2005
 17/04/2005 a 23/04/2005
 10/04/2005 a 16/04/2005
 03/04/2005 a 09/04/2005
 27/03/2005 a 02/04/2005
 20/03/2005 a 26/03/2005
 13/03/2005 a 19/03/2005
 06/03/2005 a 12/03/2005
 27/02/2005 a 05/03/2005
 20/02/2005 a 26/02/2005
 13/02/2005 a 19/02/2005
 06/02/2005 a 12/02/2005
 30/01/2005 a 05/02/2005
 23/01/2005 a 29/01/2005
 16/01/2005 a 22/01/2005
 09/01/2005 a 15/01/2005
 02/01/2005 a 08/01/2005
 26/12/2004 a 01/01/2005
 19/12/2004 a 25/12/2004
 12/12/2004 a 18/12/2004
 05/12/2004 a 11/12/2004
 28/11/2004 a 04/12/2004
 21/11/2004 a 27/11/2004
 14/11/2004 a 20/11/2004
 07/11/2004 a 13/11/2004
 31/10/2004 a 06/11/2004
 24/10/2004 a 30/10/2004
 17/10/2004 a 23/10/2004
 10/10/2004 a 16/10/2004
 03/10/2004 a 09/10/2004
 26/09/2004 a 02/10/2004
 19/09/2004 a 25/09/2004
 12/09/2004 a 18/09/2004
 05/09/2004 a 11/09/2004
 29/08/2004 a 04/09/2004
 22/08/2004 a 28/08/2004
 15/08/2004 a 21/08/2004
 08/08/2004 a 14/08/2004
 01/08/2004 a 07/08/2004
 25/07/2004 a 31/07/2004
 18/07/2004 a 24/07/2004
 11/07/2004 a 17/07/2004
 04/07/2004 a 10/07/2004
 27/06/2004 a 03/07/2004
 20/06/2004 a 26/06/2004
 13/06/2004 a 19/06/2004
 06/06/2004 a 12/06/2004
 30/05/2004 a 05/06/2004
 23/05/2004 a 29/05/2004
 16/05/2004 a 22/05/2004
 09/05/2004 a 15/05/2004
 02/05/2004 a 08/05/2004
 18/04/2004 a 24/04/2004
 04/04/2004 a 10/04/2004
 07/03/2004 a 13/03/2004
 29/02/2004 a 06/03/2004
 22/02/2004 a 28/02/2004
 15/02/2004 a 21/02/2004
 08/02/2004 a 14/02/2004
 01/02/2004 a 07/02/2004
 25/01/2004 a 31/01/2004
 18/01/2004 a 24/01/2004


Votação
 Dê uma nota para meu blog


Outros sites
 Novo CAMINHÃO DE LIXO
 Sarau Expressão Livre
 Chovia (Sharon Eve)
 Labuta Musical (Tatinha Marchesan)
 Blog do Léo Sauaia
 Marinu's Blog (Marineli)
 Non ducor, duco (Tony Wendell)
 Plano Blog (banda Plano B)
 Aff, eu tenho um blog!!! (Vanessa)
 "E essas coisas que diz toda mulher" (Thati Sé)
 Em Construção (Lucas)
 Tráfego da Boa Música (Tiago)



O que é isto?
TERRENO BALDIO
 

O RUIVO
Rascunho de roteiro para um curta-metragem de ação

Parte 5

Close em Dé, que fala com uma voz calma:
- Zico, olha lá a merda que você vai fazer...
A câmera abre e mostra o semi-círculo formado por Dé, Oberdan e Paco. Os três aos poucos se aproximam, tentando cercar Zico, que segura o revólver e aponta ora para um ora para outro. No meio dos quatro, ainda imóvel, jaz o corpo do ruivo no chão. Paco diz, desesperado:
- Porra, Zico! Qualé, tu quer foder com a gente, é isso?
Oberdan se exalta:
- Esse filho da puta é um doente! Começou a socar o sujeito do nada! Louco! Assassino!
Dé grita, autoritário:
- Já mandei calar a boca, porra!
Ele encara Zico por alguns segundos. Finalmente fala, novamente num tom calmo:
- Zico, Zico... Pensa bem, cara. Você já cuidou daquele infeliz, já mandou ele pro inferno, tá lembrado? Você já teve sua vingança. Me diz, o que é que esse mané aqui tem a ver com a história? Ele é só um trouxa...
Dé diz isso e aponta para o ruivo estendido no chão. Zico encara Dé e aponta o revólver para ele. Oberdan, confuso, franze a testa e pergunta:
- Que porra de papo é esse? Do que é que tu tá falando, Dé?
Paco está pensativo, como se estivesse tentando se lembrar de algo. Até que balbucia, meio que para si mesmo:
- Ele tá falando do sujeito que roubou a noiva do Zico... O infeliz que o Zico acabou cortando em pedacinhos...
Dé e Zico continuam se encarando. Oberdan parece ainda mais perdido:
- Como é que é? Que porra é essa, Paco? Do que ele tá falando, Dé? O que é que isso tem a ver?
Paco responde:
- Tu não lembra da história, Oberdan? A que todo mundo conta? O Zico, saindo da cadeia, descobriu que um puto tinha roubado a noiva dele. Daí ele foi lá, matou a noiva e depois cortou o puto em pedacinhos...
- É claro que eu conheço essa história, porra! Todo mundo vive falando disso! Mas o que é que tem a ver?
- Uma vez me falaram que o puto que roubou a mina do Zico era um ruivo... Não era, Dé?
Dé não responde. Apenas continua encarando Zico. Oberdan está perplexo:
- Puta que pariu... É isso, então? É por isso que nós tamo nessa merda?
Ele explode:
- Porra! Porra! Caralho, Zico! Tu resolveu surtar e socar o infeliz só porque ele é ruivo? É por isso?!! Por acaso tu é alguma porra dum touro, é? Se neguinho balançar uma porra vermelha na tua cara, tu perde a cabeça, vira bicho, é isso?!!! Vai tomar no cú, caralho!
Dé resolve intervir:
- Cala a boca, Oberdan!
- Cala a boca o caralho! Cala a boca o caralho! Eu é que não vou pra porra dum inferno dum xadrez só porque o demente ali não gosta de ruivo!
Nesse momento, Zico aponta o revólver para Oberdan. E, pela primeira vez, ouve-se sua voz. Ele berra:
- O inferno é aqui, caralho!! É aqui!!!
Zico esmurra o próprio peito, enquanto continua gritando que "o inferno é aqui". Os três apenas olham, atônitos. Ele pára de gritar e respira ofegante. Seguem-se alguns segundos de silêncio. De repente, ouve-se alguns ruídos, como se fossem murmúrios. Os quatro se entreolham e depois olham para o chão.
- Hum... hum... hum...
É o ruivo, que está se mexendo no chão e tentando dizer alguma coisa. Mas ele apenas engasga e cospe sangue. Ele tosse e continua cuspindo sangue e se esforçando para dizer algo. Os quatro se aproximam para tentar ouvir. Até que o ruivo reúne todas as suas forças e consegue dizer:
- Corno...
Close em Zico, que aponta o revólver para o ruivo e dispara todas as balas. Ele cospe no cadáver e, pela segunda vez, ouve-se sua voz, praguejando:
- Ruivo filho da puta!

FIM

Uma homenagem a Marçal Aquino e Beto Brant.

texto

 Escrito por John às 10h00 []



O RUIVO
Rascunho de roteiro para um curta-metragem de ação

Parte 4

Plano geral duma rua escura, onde um carro está estacionado. É noite. Dentro do veículo, na parte da frente, estão Paco, sentando na direção, e Dé, no banco do passageiro. No banco de trás, estão Oberdan e Zico. Dé olha para os três e diz:
- Bom, negada, foi um bom serviço. Rolou tudo direitinho e agora cada um já sabe o que fazer, firmeza?
Oberdan inclina-se para frente:
- Pô, peraí, Dé. Que horas são?
Dé aponta para o relógio no painel do carro e responde:
- Quinze pras onze.
- Então, dá tempo de fazer mais um!
Dé franze a testa e volta-se para trás:
- Como assim? Você tá viajando! Fica muito em cima, não vale a pena.
Oberdan mexe-se, impaciente:
- Claro que dá tempo, é só a gente não ficar de embaço! Porra, tá vendo aquele sujeito logo ali? Então, tá de vacilo, é ele mesmo. Vai ser sopa no mel!
Os três voltam seus olhares para a direção apontada por Oberdan. Ele insiste:
- Vamo aí, vai! É a saideira!
Paco vira-se para Dé, esperando pela resposta. Dé fica em silêncio, pensativo. Vira-se para trás e olha para Zico, que apenas o encara. Finalmente, volta-se para Oberdan e diz:
- Então tá. Vai tu e o Zico. Mas, ó, jogo rápido, hein?
Oberdan se anima:
- É, assim que se fala, porra!
Ele dá um tapa na perna de Zico:
- Vamo lá, doido, é nóis!
Dé diz:
- E já sabe, hein? Se der treta, ruma lá pro ponto de encontro!
Oberdan franze a testa e responde:
- Ei, tu gosta de jogar uma zica, hein! Não vai dar treta não, relaxa!
Ele e Zico saem do carro. A câmera vai para o banco de trás e mostra o mesmo ângulo de visão que Paco e Dé têm. Pelo pára-brisa, é possível ver Oberdan e Zico correndo em direção a um carro parado num semáforo na rua perpendicular à que eles estão. Oberdan saca o revólver e aponta para o motorista, enquanto Zico se dirige para a porta do outro lado. Após alguns segundos, os dois conseguem entrar no carro. Paco comemora:
- Beleza! Agora é depenar o trouxa!
Ele liga o carro e segue em direção ao outro veículo, que arranca na frente. A câmera mostra os dois carros seguindo em alta velocidade por uma série de ruas, até chegar a uma avenida principal, onde passam a correr ainda mais. Corta para o carro onde estão Paco e Dé. Paco diz:
- Ô, Dé, e essas histórias que o povo fala do Zico, hein?
- Que é que tem?
- São... de verdade?
Dé sorri.
- Depende de qual. Eu conheço várias. De qual delas você tá falando?
Paco parece meio sem jeito de perguntar:
- Bom, aquela... De quando o Zico pirou...
- Hum.
- O que dizem por aí é o seguinte: num assalto a mando do "Véio", ele acabou rodando. Enquanto tava em cana, a mina dele arrumou outro cara. Saindo de lá, o Zico caçou os dois e acabou com a raça deles: arrancou a pele da mina e cortou o cara em pedacinhos.
- Hahaha, essa história fica melhor cada vez que alguém conta! Não era a mina dele, era a noiva. O Zico e ela tavam de casamento marcado. E ninguém arrancou a pele de ninguém. Foi um tiro na cabeça.
Um flashback rápido, em preto e branco, mostra Zico atirando na cabeça duma morena, da qual não é possível ver o rosto. Volta para os dois no carro. Dé continua falando:
- O Zico era apaixonado por ela, não queria que ela sofresse.
- Porra... Bom, então esse papo de fatiar o cara também é balela?
- Então, aí é que tá...
Outro flashback rápido, de novo em preto e branco, mostra Zico segurando um machado. Volta para os dois no carro. Dé continua:
- Essa parte é verdade.
Mais um flashback rápido, em preto e branco, mostra Zico erguendo o machado e seu rosto ganhando uma expressão ensandecida. Volta para os dois no carro. Agora é Paco quem fala:
- Caralho! Nem fodendo!
- Porra, tô te falando...
- Caralho, o cara é doente mesmo!
- É? E você já parou pra se colocar no lugar dele? Se um espertinho viesse roubar tua mulher, você não ia querer trucidar o infeliz?
- Pode crer, ia mesmo.
- Então.
- Mas como foi que ele não rodou dessa vez?
- O Zico sempre foi protegido do Jorjão. O "Véio" achou que o Zico tava no direito dele, por isso não deixou ninguém chegar perto.
- Porra, esse "Véio" também é fodão, hein...
Após alguns segundos de silêncio, Paco exclama:
- Mas que porra é essa?
A câmera mostra o carro da frente, onde estão Oberdan e Zico, ziguezagueando em alta velocidade e depois repentinamente fazendo uma curva fechada para entrar num travessa da avenida. Paco e Dé estão indo rápido demais para conseguir repertir a manobra e assim eles acabam passando reto pela rua. Paco ainda tenta frear, mas quase bate num caminhão que vem atrás, fazendo com o que o motorista buzine como um louco. Dé grita:
- Porra, assim tu vai perder eles!
- Eu sei, tô tentando, caralho!
Paco consegue achar um retorno, mas a outra pista da avenida está movimentada. Mesmo assim, ele entra com tudo, fazendo com que os outros carros tenham que desviar e buzinar. Chegando no próximo retorno, ele repete a operação e consegue entrar na rua onde Oberdan e Zico viraram. Dé está impaciente:
- Onde esses porras se enfiaram?
- Porra, que será que aconteceu? Será que o trouxa tava armado e tentou bancar o valente?
- Duvido, o Zico e o Oberdan não iam vacilar. A primeira coisa que devem ter feito foi dar uma geral nele... Merda!
- E agora? Eles sumiram mesmo!
- Bom, não tem saída, toca pro ponto de encontro... E reza pra eles terem ido pra lá!
O carro segue por várias ruas, até estacionar em frente ao portão de algo que parece ser uma oficina de desmanche de carros ou um ferro-velho. O carro onde estavam Oberdan e Zico também está lá, parado. Paco e Dé se aproximam para averiguar e encontram Oberdan lá dentro, alisando a própria nuca, com uma expressão dolorida, como se tivesse levado uma pancada e estivesse recobrando a consciência naquele instante. Dé pergunta:
- Caralho, que aconteceu?
Oberdan, ainda meio tonto, responde:
- Porra, eu te avisei que trazer esse doente ia dar merda...
- Mas o que é que houve, caralho?
- Tava indo tudo certo, a gente já tava indo pro caixa-eletrônico pra depenar o trouxa. Mas o Zico já tinha ficado todo esquisitão desde que a gente entrou no carro...
- E aí, porra?
- Duma hora pra outra, o doente surtou! Sem mais nem menos! Pulou no pescoço do trouxa e começou a esmurrar o sujeito! Eu tava dirigindo, não entendi picas! Tentei apartar, mas não rolou. Minha reação na hora foi tocar pra cá. Assim que encostei o carro aqui, vi tudo preto, o demente me fez apagar, acho...
Nesse momento, começam a ouvir gritos. Os três se entreolham, começam a correr e entram no ferro-velho. Seguem em disparada pelos corredores formados pelas pilhas de sucata, em direção à origem daquela gritaria.

texto

 Escrito por John às 09h35 []



O RUIVO
Rascunho de roteiro para um curta-metragem de ação

Parte 3

Inicialmente, a câmera está fechada em Dé. Aos poucos, o enquadramento vai se abrindo. Sentado num sofá, ele investiga o ambiente ao seu redor e a câmera acompanha seu olhar. Está numa sala simples e pequena, pouco mobiliada (além do sofá, há apenas mais uma mesinha baixa), mas com paredes repletas de imagens de santos católicos, medalhinhas e relicários pendurados. Num canto, um altar abriga uma Nossa Senhora cercada de velas e um vaso de flores. A observação é interrompida por um sujeito alto, musculoso e com cara de enfezado, que indica com a cabeça a mesma porta por onde entrou. Ele diz:
- Ele tá lá fora, pode ir.
Dé assente com a cabeça, levanta-se e caminha em direção à porta. Passando por ela, chega numa espécie de pequena sacada formada pela laje daquele modesto barraco em que está. Parado ali fora, de costas para a porta, está um homem alto e magro vestindo jeans e regata branca. Ele olha para Dé com o canto do olho, tira o maço de cigarros do bolso, saca um e o acende. Vira-se para Dé e solta a primeira baforada de fumaça.
- Não troco isso aqui por palacete nenhum nesse mundo...
Ele diz e aponta com a cabeça para trás de si. Um plano geral encarrega-se de mostrar o que exatamente é o tal do "isso aqui" a que o homem se refere: uma porção de barracos modestos e muito parecidos com aquele ali onde eles se encontram. A câmera fecha em Dé, que responde:
- É. Mas tem um monte de nêgo por aí que mataria meia dúzia pra morar num palacete...
O homem encara Dé por um segundo e depois ergue os olhos para o céu, como se estivesse refletindo sobre aquela resposta. Por fim, diz apenas:
- Obrigado por ter atendido tão rápido assim o meu chamado.
Ele estende a mão, Dé aceita o cumprimento e diz:
- Magina, Jorjão. É sempre um prazer.
Jorjão sorri.
- Você é um dos poucos que me chamam assim. Pra molecada, eu sou o "Véio". É um tal de "Véio" pra cá, "Véio" pra lá... Tô vendo tudo, qualquer dia desses, a minha pequena vai me chamar de "Véio" ao invés de "papai".
Agora é Dé quem sorri. Seguem-se alguns segundos de silêncio, até que Jorjão decide ir ao assunto:
- Tô sabendo que você tá preparando um serviço...
- Uma noite só, ação rápida, quatro ou cinco seqüestros.
- Bem pensado. Um bom jeito de levantar uma grana rápida. Depois é só sair de circulação e aprontar a próxima.
- Isso.
- Já tem teu time?
- Eu e mais dois. O Oberdan e um moleque, Paco. Novinho ainda, mas ponta firme.
- Sei quem é.
Seguem-se mais alguns segundos de silêncio. Novamente, é Jorjão quem fala:
- E por acaso você acha que tem espaço pra mais um?
Dé parece um pouco surpreso com a pergunta, por isso vacila durante alguns instantes antes de responder:
- Bom, não sei, Jorjão. Tá tudo meio que já no esquema, eu teria que falar com os caras...
Jorjão o interrompe sutilmente:
- Talvez o Oberdan seja novo demais pra entender... E esse menino Paco com certeza é, mal saiu das fraldas. Mas você é dos meus, André, você é do meu tempo. Você sabe que bandido também tem honra, tem moral, tem ética.
Dé observa Jorjão andar dum lado para o outro enquanto prossegue falando:
- Quando você chega num certo ponto, ser bandido acaba virando o mesmo que ser um desses bacanas, donos de empresa. Você tem um monte de coisa pra administrar, um monte de gente no seu pé, pedindo, reclamando. E aí você tem que ouvir todo mundo e tomar uma decisão que você acha a mais acertada, a mais justa. Felizmente ou infelizmente, eu cheguei nesse ponto.
Jorjão se apóia na mureta e contempla o horizonte, de costas para Dé. Segue falando, como se estivesse mais pensando em voz alta do que propriamente narrando uma história:
- Você veja o Zico. Ele sempre foi o sujeito mais ponta-firme que eu conheço. Bom pra trampar. Bom no que fazia. Por uma dessas merdas do destino, ele acabou se dando mal justamente num serviço meu. Foi pro xadrez, fez o tempo dele direitinho, pianinho, tudo nos conformes. Quando ele ganhou a rua, eu ia chamar o cara pra ficar do meu lado, pra ser meu braço direito. Mas aí veio aquela merda toda...
Close em Dé, que até então olhava para o nada, e que, neste ponto, subitamente volta-se para Jorjão, como se tivesse um grande interesse no que este tem para dizer agora.
- Uma mulher pode mesmo foder com a vida de neguinho... O Zico tinha tudo pra se dar bem, ia crescer, eu tinha planos pra ele. Mas no fim das contas, dou razão pra ele. Um homem tem que zelar pela sua honra, né? Se não, quem é que vai respeitar o cara?
Dé assente com a cabeça e continua olhando fixamente para Jorjão.
- A família da menina veio falar comigo. O pai dela queria que eu entregasse a cabeça do Zico numa bandeja, veja só. É claro que eu não ia falar pro homem, na cara dele, que a filha dele era uma vagabunda e que mereceu o que teve. Mas tive que defender o Zico. Ninguém boliu com ele naquela época, nem a família da menina e nem a polícia. Eu não deixei. Assim como ninguém boliu com ele também quando ele conseguiu caçar o infeliz que se engraçou com a menina.
Dé quase nem respira, hipnotizado pela história.
- O problema é que o Zico exagerou, pesou demais a mão. Dizem que ele pirou. E eu não tiro a razão de quem fala isso. O negócio foi feio mesmo. A menina teve o caixão lacrado e o infeliz, coitado, quase não sobra o que enterrar dele. Depois disso, ninguém nunca mais arrumou serviço pro Zico. Também, pudera, com a fama de louco que ele pegou...
Nesse momento, Jorjão se volta para Dé e o encara por alguns segundos antes de falar:
- Só que eu me sinto na obrigação de ajudar o Zico, André. E queria muito poder contar contigo. Vocês sempre se deram bem, tramparam juntos, sei que ele já salvou tua pele numa pá de treta por aí...
- É verdade...
- Então, eu te pergunto de novo: você acha que tem espaço pra mais um?
Por segundos, Dé olha para Jorjão em silêncio. Até que responde:
- É claro que tem.

texto

 Escrito por John às 09h59 []



O RUIVO
Rascunho de roteiro para um curta-metragem de ação

Parte 2

A ruela estreita fica bem em cima dum morro. De lá do alto, um plano geral mostra as torres que conduzem os fios de alta tensão ao longe, no horizonte. De um lado, uma ampla extensão de terra batida, de onde surgem as torres. Do outro, casebres e barracos formam um conjunto que parece ser uma favela ou um bairro de periferia. O céu está nublado. A câmera fecha num trecho da ruela, onde Dé está de pé, em frente aos outros dois homens. Um deles fuma e o outro apóia o pé na parede. Dé está falando:
- Não adianta. Tô dizendo que a gente precisa de mais um.
O homem apoiado na parede é quem responde:
- Pra quê, Dé? O Paco pode ficar no carro enquanto a gente chega junto.
Dé olha para Paco, que continua fumando e apenas faz um sinal afirmativo com a cabeça.
- Não, Oberdan. Eu fico mais tranqüilo se ficar mais um no carro.
Dessa vez é Paco quem rebate:
- Porra, tá me tirando? Tu acha que eu sou vacilão, que não dou conta do recado?
Oberdan tentar pôr panos quentes.
- Ninguém tá falando isso, relaxa. O Dé tá velho pra essas coisas, ele só quer que o serviço saia sem treta, não é isso?
Dé confirma:
- É, foi mal, não foi isso o que eu quis dizer. Só tô falando o seguinte: o serviço parece fácil, mas pra dar merda é dois palito.
Paco ainda parece ofendido e Dé mostra-se irredutível. Oberdan tenta argumentar:
- Esse serviço não vai render muita grana. O bom é que é rápido, mas não rende muito. Se a gente incluir mais um na parada, a nossa parte diminui.
Paco concorda, o que força Dé a abrir o jogo:
- O negócio é o seguinte: a gente vai ter que chamar mais um de qualquer maneira. Foi o Jorjão quem pediu e vocês tão ligados, né? Não se nega um favor ao "Véio"...
Oberdan, que até então estava calmo, fica repentinamente apreensivo:
- Porra, não me diga que esse cara que a gente tem que chamar é quem eu tô pensando...
Paco franze a testa, intrigado. Dé responde sem olhar para nenhum do dois:
- Ele mesmo.
- Puta merda! "Véio" do caralho!
Paco está visivelmente por fora do assunto:
- Peraí, de que caralho vocês tão falando? Não tô entendedo picas!
Dé abre a boca para responder, mas Oberdan se antecipa:
- Tamo falando que esse "Véio" do caralho quer fuder o nosso serviço! Quer que a gente trampe com um porra dum doente-mental, um louco, um demente!
- Calma aí, meu chapa! Tu não sabe do que tá falando...
- Claro que sei, porra! Claro que sei! Sei do que todo mundo fala e do que todo mundo sabe sobre esse doente!
- Merda, um monte de merda! É isso o que o povo fala!
- É o seguinte: ou ele ou eu. Se esse porra entrar no serviço, eu tô fora. Não vou trampar com um porra dum psicopata!
- Então é ele. Não vou dizer não pro "Véio".
Dé e Oberdan se encaram, desafiadores. Paco olha perplexo e continua sem entender nada:
- Porra, será que alguém pode me dizer de quem caralho vocês tão falando?
Os dois ignoram a pergunta e continuam se encarando, mudos. Até que Oberdan balança a cabeça negativamente e quebra o silêncio, visivelmente contrariado:
- Tu já falou com esse porra, não é?
Dé responde:
- Vou falar agora. E vocês vão comigo.
- Tô avisando: se esse cara entrar no serviço, vai dar merda...
- Ele tá esperando a gente lá na dona Diva.
Paco se irrita:
- Quem, caralho?!!!!
Os dois continuam a ignorá-lo. Seguem andando pela ruela. Paco fica ali parado durante alguns segundos, sem acreditar que os dois viraram as costas para ele. Até que se resigna e corre atrás deles.
A câmera abre e mostra novos ângulos do mesmo morro, até chegar ao final duma ladeira. Fecha num boteco de esquina, com algumas mesinhas na calçada. Os três homens chegam à porta. Já no interior do bar, a câmera move-se lateralmente e mostra o balcão, com a tal da dona Diva atrás, e algumas mesas, até chegar à porta, onde os três estão parados. Close neles, que parecem procurar alguém. Oberdan aponta desdenhosamente com a cabeça para um canto do boteco. Ele sussurra:
- Ó o maluco ali...
Os outros dois olham para o mesmo canto e Dé grita:
- Ô, Zico!
A câmera segue até um canto escuro, onde Zico está sentando numa mesa, com uma garrafa e um copo descansando bem à sua frente. Está cabisbaixo, mas lentamente ergue a cabeça. Tem uma cara de poucos amigos e olha de soslaio em direção à porta, como se algum sujeito inconveniente tivesse o interrompido durante algum afazer muito importante.

texto

 Escrito por John às 09h59 []



O RUIVO
Rascunho de roteiro para um curta-metragem de ação

Parte 1

Plano geral de algo que parece ser uma oficina de desmanche de carros ou um ferro-velho, numa periferia qualquer dum grande centro urbano. É tarde da noite. A câmera se aproxima, adentra o terreno e começa a seguir um tortuoso labirinto entre as sucatas. Ouve-se um emaranhado de sons, que aos poucos vai ficando cada vez mais próximo e nítido, até se transformar numa série de barulhos secos, como se alguém estivesse sendo espancado. Essa impressão se confirma pelos gritos e gemidos que os acompanham. Agora já é possível distinguir três vozes diferentes, todas de homem e todas exaltadas. Parecem querer apartar uma briga. A câmera finalmente chega ao local da confusão, onde três homens seguram um quarto pelos braços. Ele se debate, tentando se libertar, e parece totalmente fora-de-si. Olha fixamente para algo no chão. A câmera segue seu olhar até chegar a um corpo imóvel estendido ali. Não se pode identificar os traços daquela quinta pessoa, pois seu rosto está todo inchado e ensangüentado. Mas é possível notar pelo menos uma coisa: trata-se de um homem ruivo. Close nos três homens que seguram o agressor. Seguem-se as seguintes falas:
- Chega, Zico!
- O homem já apanhou demais!
- Tu quer matar o sujeito?
Zico nada responde. Apenas continua se debatendo, grunhindo e olhando fixamente para o ruivo no chão, que continua imóvel. Novamente os três homens falam:
- Será que o puto morreu?
- Caralho, vira essa boca pra lá!
- Ô Dé, vai ver se o homem tá respirando!
- Porra, por que eu?
- Vai logo, ô fresco, tu não é o "cabeça" aqui?
- Então segura esse filho da puta...
Dé solta Zico, que imediatamente começa a se debater ainda mais. Mas os outros dois homens o agarram com força redobrada e conseguem controlá-lo. Dé, com o semblante num misto de preocupação e temor, se aproxima vagarosamente do ruivo. Um dos dois homens sussurra:
- Eu bem que falei pra gente não trazer esse doente mental... O cara é um louco, um assassino, matou o sujeito!
- Já falei pra virar essa boca pra lá, ô caralho!
Dé se irrita:
- Cala a boca aí, porra!
Ele se ajoelha no chão e cola seu ouvido no rosto disforme do ruivo. Durante alguns segundos, fica ali parado, com os olhos arregalados, piscando nervosamente, como se aquilo de alguma forma o ajudasse a ouvir melhor. Close no rosto apreensivo dos outros dois homens. Close em Zico, que já não se debate mais, apenas respira, ofegante. Finalmente, Dé dá o seu parecer:
- Tá vivo.
Os outros dois homens não se contêm e bradam em uníssono, aliviados:
- Puta que pariu!
Zico aproveita o momento de vacilo de seus dois algozes e se solta. Dé pragueja:
- Merda!
Os três correm no encalço de Zico, mas a perseguição dura poucos segundos, pois ele logo saca o revólver da cintura. Os três param imediatamente onde estão e instintivamente erguem os braços. Dé se confirma como o "cabeça" do bando, pois uma vez mais tenta tomar as rédeas da situação, falando com uma voz calma:
- Zico, pensa bem na merda que você vai fazer...
A câmera abre e mostra o semi-círculo formado por Dé e os outros dois homens. Os três lentamente se aproximam, tentando cercar Zico, que segura o revólver e aponta ora para um ora para outro. No meio dos quatro, ainda imóvel, jaz o corpo do ruivo no chão.

texto

 Escrito por John às 11h24 []




[ ver mensagens anteriores ]