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A lojinha da coreana vendia de tudo um pouco: desde aparelhos eletro-eletrônicos até guarda-chuvas e pantufas, passando por bibelôs de porcelana e perfumes "importados" (falsificados, é lógico). Cibele trabalhava lá como vendedora, de segunda a sábado. Atendia os clientes no balcão, enquanto a coreana ficava sentada, cuidando do caixa. No começo, Cibele tinha enfrentado maus bocados para compreender o que a patroa dizia, mas com o passar do tempo acabou desenvolvendo um misterioso sistema de comunicação no qual ela falava em português, a coreana falava em coreano e ambas se faziam entender. Cibele adorava quando algum cliente entrava na loja dizendo que precisava comprar um presente para uma criança. Isso dava a ela a oportunidade de mexer em todos os brinquedos, uma vez que, quando isso acontecia, o cliente invariavelmente pedia para ver uma demonstração do robô dançarino ou para testar o funcionamento do walkie-talkie. Só não gostava quando alguma mãe entrava acompanhada pelo filho, pois a criança sempre acabava saindo de lá frustrada, sem o brinquedo que queria. Maurão era o rapaz que trabalhava como segurança da rua. Andava para cima e para baixo vestindo um daqueles coletes azuis com letras em amarelo e os comerciantes da região pagavam seu salário. Todos os dias ele passava lá na lojinha e, no começo, Cibele se incomodava com isso, achava o sujeito um tanto quanto atrevido. Tinha até convidado-a para sair um dia, vejam só. Depois, acabou acostumando-se. E as visitas começaram a se tornar mais freqüentes. Maurão passava lá logo pela manhã para dar bom dia. Na parte da tarde, levava um cafezinho para ela. No fim do dia, ficava lá na porta, puxando conversa enquanto ela se preparava para ir embora. Quinta-feira era dia de feira e Maurão sempre levava para ela um pastel e uma garapa. O pastel era especial de carne e a garapa era gelada e com limão. Cibele agradecia, mas sempre tirava o pedaço de ovo cozido que vinha no pastel e jogava fora, onde já se viu, colocar um ovo dentro dum pastel? O segurança dava risada e dizia que qualquer dia desses ainda ia conseguir convencer o "seu" Toshio, da banca de pastel, a fazer o especial de carne sem ovo dentro. E ela se perguntava por que ele nunca mais a chamou para sair de novo. Aos domingos, Cibele costumava ficar em casa mesmo, junto com a mãe, que já era bem velhinha e viva se queixando de dores e doenças imaginárias. Quando fazia calor, armava a cadeira de praia na garagem e ficava observando o movimento da rua onde morava, lá pelas bandas de Parelheiros. Sempre via a molecada correndo de um lado para o outro atrás de pipa. Outro domingo desses, teve um churrasco na casa da dona Paulina e o povo todo foi para lá. Teve até roda de samba, todo mundo dançando e puxando uns refrões antigos. Cibele estava sentada em cima da mureta, alheia ao samba, com o olhar meio perdido no horizonte, quando a amiga Soraia veio se sentar ao seu lado. Começou a contar uma história envolvendo um ex-namorado, mas Cibele não prestou muita atenção. Enquanto a amiga falava, ficou tentando decidir que roupa iria usar para ir trabalhar na segunda-feira. A escolha do figurino foi interrompida pela voz estridente de Soraia: - Ô, Cibele! Cibele! Responde, criatura! Credo, você não ouviu uma palavra do que eu disse. Tá pensando na vida, é? O que é que houve? - Ai, nada não... Domingo é um dia tão triste, não acha? texto
Escrito por John às 14h46
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ATENÇÃO: o texto a seguir será melhor compreendido depois da leitura do post publicado ontem (19/01) pelo Léo Sauaia em seu blog. Para acessá-lo, clique aqui. Dito isto, vamos lá...
"It's a kind of magic!"
Por conta da epifania na linha do trem, o Barbudo sugeriu que eu escrevesse uma letra inspirada na pequena Luize e na igualmente pequena Thati Sé. Só que aquele sentimento descrito por ele me fez lembrar de outras duas histórias, as tais "fofíssimas"... Eis a primeira: minha amiga Andréa foi passar as férias de final de ano num sítio em São João da Boa Vista, acompanhada pelo marido (meu chefe) e pelos dois filhos. Um deles, Mateus, o mais velho, de dez anos de idade, arranjou uma namoradinha por lá. Infelizmente, em determinado momento, chegou a inevitável hora da despedida. Chororô pra cá, chororô pra lá e o casalzinho teve que ser separado, pois a Andréa e toda a trupe tinham que ir pra Lençóis Paulista, onde moram os parentes do meu chefe. O prédio no qual eles têm apartamento em Lençóis é cheio de crianças e o pequeno Mateus sempre gostava de descer pra brincar. Mas não desta vez... A mãe, preocupada, perguntou por que ele não queria descer. E o filho respondeu: "É porque eu prometi à Helen (a namoradinha) que não ia olhar pra nenhuma outra menina". A segunda história quem me contou foi a Sílvia: a Clarice Lispector, quando tinha nove anos de idade, escreveu uma peça falando sobre o amor. Mas escondeu o texto atrás do armário, com medo ou vergonha que alguém lesse. Tempos depois, ela acabou rasgando a tal peça, coisa da qual se arrependeu amargamente quando ficou mais velha - afinal, seria uma experiência riquíssima ler o que ela mesma pensava sobre o amor aos nove anos. Bom, eu e o Barbudo acabamos concluindo que a letra deveria então falar sobre esse amor de criança, puro e ingênuo, que acaba se perdendo com o passar do tempo e com o avanço da idade, mas que norteia (mesmo que às vezes inconscientemente) os nossos relacionamentos futuros. Por algum motivo, pensei na música "O Descobrimento do Brasil", da Legião Urbana, pois queria tentar escrever algo um pouco diferente do qual sempre estive habituado. Acabou ficando só na tentativa mesmo... Aproveitei que me sentia meio inspirado e juntei as três histórias (da Luize, do Mateus e da Clarice Lispector) com a imagem da linha do trem. E ainda adaptei um verso que o Barba tinha escrito, em inglês, que dizia: "calmly enjoying the walk in the midday sun and that's enough". Coloquei minhas próprias idéias e sentimentos e pronto. No dia seguinte, mandei o arquivo pra ele, ansioso pra saber sua opinião... O resto, ele mesmo já contou em seu blog. E também foi ele quem usou a palavra que, na minha opinião, melhor define o que ocorreu durante a composição dessa música: magia. Talvez não seja a nossa obra-prima, mas com certeza passou a ser uma das minhas preferidas do Ahimsa, por todo o caráter afetivo, por tudo o que representa pra mim e pra ele neste momento. Barbudo, eu é quem agradeço por tudo. Chorei de verdade ontem ao ouvir o resultado final... A letra segue aí abaixo. A música pode ser ouvida na homepage do Léo (basta acessar o blog dele e clicar na "maçã"). Ah, e eu juro que a gente não combinou de contar a historinha assim, um pedaço em cada blog. Esse é mais um exemplo da nossa telepatia (fuck you, mr. Quevedo, isso ecziste si!).
NOVE
Eu tinha nove e você, não mais que isso. Mas me lembro bem do teu sorriso. Pela linha do trem, quase te vejo me jogando um beijo com as mãos.
"- Manhê, eu não quero mais brincar. Prometi a ela que jamais iria olhar pra nenhuma outra menina..."
No fundo, ainda busco recriar um pouco daquela poesia. Quando andar de mãos dadas sob o sol do meio-dia era o que bastava.
"- Tarde demais, tudo já ficou pra trás. Perdemos a ingenuidade, complicamos o que era simples e esse é o grande mal da idade."
"- Não, minha linda, tudo continua simples. O grande mal da idade é que acabamos esquecendo quem nós somos de verdade: eu sou astronauta e você é bailarina!"
A gente sabe se uma pessoa teve uma infância boa pela quantidade de cicatrizes que ela tem.
E assim também a gente sabe, ter o coração ileso na verdade é o mesmo que nunca ter amado alguém...
Sutton, Inglaterra e São Paulo, Brasil. 18 de janeiro de 2005. Léo Sauaia & John. Agradecimentos especiais a Thati Sé, Andréa Oliveira e Sílvia Sibalde.
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E que sejamos sempre astronautas e bailarinas! texto
Escrito por John às 10h01
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"Feliz aniversário, envelheço na cidade!"
Há um ano, no dia 19 de janeiro de 2004, exatamente às 12h48, ele nasceu em São Paulo. De posse dessas informações, resolvi encomendar o mapa astral da criança e assim acabei descobrindo que o MOTORISTA DO CAMINHÃO DE LIXO é do signo de Capricórnio, o que, segundo os astrólogos, significa que ele é uma pessoa disciplinada, ambiciosa, paciente e perseverante, que pensa com objetividade no longo prazo e na estruturação lenta de seu sucesso. Tem apreço pela excelência, quer sempre ser o melhor naquilo que faz e conjuga freqüentemente o verbo "poder" na primeira pessoa do singular. Por ter Áries como ascendente, ele tem uma identidade impulsiva e voltada para a auto-afirmação. O signo de Gêmeos rege sua terceira casa, a da interação e dos intercâmbios, o que faz com que sua forma de se comunicar com o mundo seja dinâmica, versátil e vivaz, com aptidão para falar, ler, aprender e explicar as coisas. Ao mesmo tempo, Leão rege sua quinta casa, a da exaltação e da criatividade, fazendo com que seja uma pessoa dramática e teatral. Sagitário é o regente da sua nona casa, a da filosofia e das metas de vida, e portanto ele procura expandir seus horizontes de forma otimista e entusiasmada, além de buscar um sentido mais elevado para a vida. Finalmente, Peixes é o signo regente da sua décima-segunda casa, a do sistema de fé. Dessa forma, o MOTORISTA DO CAMINHÃO DE LIXO possui uma fé cósmica e intuitiva. Talvez por isso ele tenha me pedido para ler seu horóscopo de hoje, que diz: "O período é propício para a vida social e para aproveitar ao máximo a companhia das pessoas. Aceite convites e promova encontros com seu grupo. O momento é benéfico para pensar em parcerias. Saiba definir bem o que cada um poderia oferecer e divida bem as tarefas". Tanto ele quanto eu chegamos à mesma conclusão. Isso tudo só pode significar uma coisa: FESTA! Alguém se habilita?
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A primeira vez que cheguei perto dum blog foi quando soube que um amigo meu, o Raul "Boi" (com quem eu havia tocado numa banda de hard rock chamada Diesel Free), tinha criado um. Li uns trechos e achei divertido, mas não me animei muito a fazer um pra mim. Só fui pensar nisso anos mais tarde, quando minha afilhada Tatinha Marchesan inaugurou o Labuta Musical. A idéia de misturar comentários sobre música e cultura, aliados à visão pessoal de vida, acabou me atraindo, muito mais do que fazer um mero diário na web. Pois bem, durante minhas férias, no ano passado, finalmente resolvi criar meu blog, inicialmente batizado de Plano Blog, já que o objetivo no princípio era contar a trajetória da banda. O tempo foi passando e, instintivamente, passei a incluir nos posts informações sobre outras coisas bem importantes para mim, como os shows do Ahimsa e as edições do Sarau Expressão Livre. Com tantas coisas acontecendo na minha vida, era natural que cada vez mais o blog passasse a ser muito mais sobre mim mesmo do que qualquer outra coisa... Nada mais justo, portanto, que um outro nome e endereço passassem a ser adotados - e foi assim que este espaço foi carinhosamente rebatizado de MOTORISTA DO CAMINHÃO DE LIXO. Como vocês podem ver na seção de links, aí do lado esquerdo, o Plano Blog ainda existe. E agora é, de fato, destinado exclusivamente aos assuntos da banda, sendo, inclusive, assinado em conjunto por todos os integrantes. Aliás, por falar nos links, além do Labuta Musical, um outro blog que rapidamente acabou se tornando referência para mim foi o encantador Chovia, da igualmente encantadora Sharon Eve. Tenho certeza que muitos irão concordar comigo: o Chovia é hours-concours (putz, é só ir lá ver o post de hoje...) e a Eve é uma fotógrafa até na hora de escrever. Existem duas coisas que me dão bastante orgulho quando penso no meu blog. Primeiro: ele passou a ser visitado regularmente por algumas pessoas que dedicam minutos preciosos do seu tempo para ler o que eu escrevo. Segundo: de alguma maneira, ele ajudou a incentivar outras pessoas a criarem seus próprios espaços. E a família já está bem grandinha: o Tony, o Léo, o Marineli e, mais recentemente, a Van e a Thati, todos passaram a ter seus links aí do lado. Enfim, foi um ano repleto de historinhas, opiniões, desabafos e, acima de tudo, de amigos que não somente lêem o que dizem estas linhas, mas que também vivem me dando motivo e material para continuar escrevendo. Um beijo a todos. texto
Escrito por John às 09h33
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Sou perdulário em todos os sentidos. Não sei guardar dinheiro. Da mesma forma, vivo esbanjando gestos, palavras e, principalmente, sentimentos. Tudo é em excesso e, às vezes, sinto que deveria guardar certas coisas só para mim. Mas a mesma regra que se aplica aos bens materiais creio que também vale para todo o resto. Ninguém leva nada daquilo que juntou para o túmulo. Ou seja, no fim das contas, prefiro ser assim mesmo, "mão-aberta". Pois quanto mais eu gasto, mais eu sinto que meu coração se enriquece. texto
Escrito por John às 10h34
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Ali no Conjunto Nacional, quase em frente à loja maior da Livraria Cultura, um marmanjo chora copiosamente, feito criança. Apóia a cabeça no ombro dum outro rapaz, cujo semblante é um misto de solidariedade e pena. Fico imaginando o que teria acontecido para deixar o marmanjo naquele estado de desespero e penso que a hipótese mais provável é a de que algum ente querido morreu. Quando ela chega, relato o ocorrido e sou surpreendido com uma outra possibilidade: - E se o marmanjo é que matou alguém? Já pensou? Um pensamento que alguns considerariam perturbador. Mas inegavelmente instigante. Não é uma hipótese a ser descartada. Ele poderia ter matado alguém sem querer. Poderia ter atropelado uma pessoa e só naquele momento, horas depois do acidente, é que lhe ocorreu a idéia de que aquela pessoa era provavelmente um pai, um filho, um marido ou um amigo (ou tudo isso junto). Poderia ter assassinado alguém por impulso. Numa tola discussão no trânsito, depois de ter sido fechado por um apressadinho, depois de ter sido abalroado por trás por um distraído, depois de um motoboy ter arrancado seu retrovisor. Poderia ter cometido um crime a sangue-frio, premeditado. E poderia estar há semanas sem dormir, corroído pelo remorso e pela culpa. Por pesadelos com a imagem da vítima assombrando suas noites.
Desde pequeno, sempre gostei de observar as pessoas na rua. Não por curiosidade ou voyeurismo. Apenas me atraía a idéia de que eu sabia exatamente o caminho e os acontecimentos que haviam me levado a determinado lugar em determinado instante, mas não fazia a menor idéia do caminho e dos acontecimentos que levaram outra pessoa ao mesmo lugar no mesmo instante. Provavelmente, jamais ficaria sabendo, portanto só me restava imaginar. Talvez seja por isso que hoje em dia eu goste tanto de inventar histórias. Isso acontece com mais freqüência quando estou voltando, a caminho de casa. Na ida, geralmente fico com o pensamento voltado para o meu próprio destino. Na volta, quase sempre estou distraído, os pensamentos vagando... O que me permite, por exemplo, imaginar o que aquele casal está fazendo ali, pegando o último metrô. Ou de onde está vindo aquele sujeito bêbado, que cochila com a boca aberta e a cabeça tombada para trás. Ou se alguém está na estação à espera daquela moça de saia jeans, blusinha vermelha e brincos de libélula. O garotinho agarrado no braço da mãe não pára de me encarar. Quem sabe, talvez esteja se fazendo as mesmas perguntas a meu respeito...
Quanto ao marmanjo no Conjunto Nacional, concluo que alguém pode realmente ter matado uma pessoa. Mas, e se foi ele quem morreu? texto
Escrito por John às 14h52
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