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O que é isto?
TERRENO BALDIO
 

Quem diria...

Acho que as grandes desilusões têm um propósito.
Não que eu acredite naquele papo de que "tudo acontece por algum motivo" e etc.
Algumas derrotas e perdas são inevitáveis.
E é claro que é doloroso sentir-se impotente diante de algo tão caro.
Sim, existe um tempo para a tristeza.
Conheço bem esse assunto.
Quem anda do meu lado sabe que eu desperdicei uns bons anos alimentando mágoas.
E para quê?
Só para no final descobrir que mágoa, ressentimento e raiva têm pouco ou nada a ver com amor.
Esses sentimentos negativos são a reação natural de quem vê um sonho desmoronar.
Mas tão naturalmente quanto chegam, um dia vão embora.
Só que é preciso deixá-los partir.
Insistir neles representa uma mórbida e tola necessidade de sentir pena de si mesmo, de cutucar a própria ferida, de se apegar a algo que é familiar mas que já ficou para trás, de tentar em vão negar "que a vida continua e se entregar é uma bobagem".
Mágoa, ressentimento e raiva não são sintomas de amor.
São sintomas de medo.
Medo de se machucar, de cair de novo.
O amor serve para inspirar, para dar esperança e para encher a vida de beleza.
Por mais que isso soe como um papo de hippie, é verdade.
Acho que as grandes desilusões servem para a gente ter certeza de que sempre é possível recomeçar.

Costumo dizer que se eu consegui parar de fumar, qualquer um consegue.
Bom, o mesmo vale para esse caso.
Se eu consigo dizer e acreditar nisso tudo que escrevi aí em cima, então qualquer um consegue.

Eu não tenho mais medo de me machucar.
Ainda mais depois que descobri que existe band-aid colorido.
Tem de todas as cores: vermelho, azul, rosa...
Até amarelo.

texto

 Escrito por John às 10h48 []



Tal qual Rob Fleming, personagem-central de "Alta Fidelidade", Gisele inventou de enumerar um ranking particular enquanto se maquiava defronte ao espelho. Listou as cinco frases que sempre pensava em dizer para Marcos e que nunca dizia, pois na hora h acabava desistindo. Eram elas:
1) Estou morrendo de saudades de você.
2) Queria largar tudo o que estou fazendo agora para te encontrar neste exato momento.
3) Não consigo ficar um minuto sequer sem pensar em você.
4) Nunca fui tão feliz assim com outra pessoa antes.
5) Eu te amo.
Não era por causa do medo que ela deixava essas frases em segredo, ocultando assim seus sentimentos. Apenas considerava que não devia se expor. Podia acabar assustando o namorado, fazendo-o se sentir pressionado a tomar alguma atitude. Qual? Não sabia dizer, os homens são estranhos mesmo, sempre acham que estão sendo cobrados, como se um relacionamento fosse uma espécie de teste constante. No fundo, seu comportamento defensivo era muito mais como um sentido de auto-preservação. Gisele não queria dizer algo sem ter a certeza de que ouviria a resposta certa. Ou, pelo menos, uma apropriada. É, teve que reconhecer que às vezes um relacionamente pode ter mesmo alguns testes... Aproveitou para elaborar outro ranking, o das cinco melhores respostas que ela gostaria que Marcos lhe desse. Que eram, respectivamente:
1) É o que eu sempre sinto logo depois de te deixar.
2) Tarde demais, eu larguei tudo antes e já estou indo te encontrar.
3) Eu até consigo, mas aí começo a ficar roxo e não sinto mais minhas pernas.
4) Eu já... Ah, era você que estava comigo ontem? Então esquece.
5) Eu te AMO.
Interormpeu os devaneios e a maquiagem ao ouvir o telefone tocar. Atendeu, era o namorado.
- Querida, não vai dar para a gente sair hoje. Pintou um imprevisto aqui no escritório e eu vou ter que ficar até mais tarde, sem previsão de horário. E no final de semana tem aquele churrasco do pessoal da faculdade, então vamos ter que deixar para a semana que vem.
Suspirou, antes de dizer a frase que SEMPRE dizia para Marcos:
- Tudo bem, não tem problema.
- Beleza. Beijo, tchau.
Bingo. A única resposta que ele sabia dar.
Aproveitou que estava com o pincel de blush na mão e pintou uma bola vermelha bem na ponta do nariz.

texto

 Escrito por John às 09h29 []



O silêncio.
E de repente...
- Te incomoda?
- O quê?
- O tique-taque...
Com um gesto, ela indica o relógio grande pendurado na parede atrás de mim.
Quando me viro de volta para ela, já não consigo tirar da minha cabeça o som dos ponteiros se movendo.
- Não. Aliás, eu nem tinha reparado no barulho do relógio até você mencioná-lo.
É curioso.
Parece que certas coisas simplesmente não existiam antes de você começar a pensar nelas.
Na verdade, você sabe que elas sempre estiveram ali, mas é como se tivessem nascido naquele momento.
E então, depois disso, mesmo que você tente esquecê-las, torna-se impossível ignorar sua existência.
Alguns desejos também são assim.
Tique-taque, tique-taque, tique-taque...

texto

 Escrito por John às 09h46 []




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