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O que é isto?
TERRENO BALDIO
 

Os olhos dela tinham um quê de cansaço.
De noites mal dormidas por excesso de trabalho e falta de dinheiro.
E, ainda pior, por já não conseguir nem se lembrar dos próprios sonhos pela manhã.
Mas neles brilhava também uma ponta de teimosia, um ar de não-me-entrego-sem-lutar.
Seus ombros eram levemente arqueados, como os de quem carrega um grande fardo.
Em contrapartida, seus passos eram firmes e decididos, como os de quem tem certeza de onde levá-lo.
Vestia-se de um jeito simples, básico, como a menina que mora no fim da rua. E assim era também a sua beleza.
Nem por isso menos cativante.
- Oi!
- Hã... oi?
- Olha, eu sei que vai parecer estranho, você nem me conhece e eu aqui, te abordando no meio da rua... Mas eu não podia deixar de te dizer uma coisa. Na verdade, eu queria te agradecer.
- Hein? Como assim?
- É, te agradecer. Meu dia foi péssimo. Sabe um daqueles dias em que era melhor você ter ficado na cama? Pois é.
- Desculpa, eu estou com pressa...
- Tudo bem, imagino, mas serei breve. Ultimamente, só tenho tido dor de cabeça. Minha vida sentimental está... Desculpe o palavrão, mas está uma merda. E isso tem atrapalhado meu rendimento no emprego, ando fazendo um montão de bobagem. E eis que eu, indo para casa e pensando nisso tudo, cruzei com você, aqui na rua. E você sorriu e eu tive a nítida impressão de que foi para mim. E eu não quero que você me diga se é verdade ou não, eu prefiro continuar acreditando que você realmente sorriu para mim, porque isso iluminou meu dia, entende? Você pode achar uma bobagem um sujeito querer se iludir dessa maneira, mas tudo bem. Ah, e obrigado! Bom, era isso, não vou mais te incomodar. Só achei que você tinha o direito de saber disso e que eu tinha que te agradecer. Tchau!
"Mas que sujeito mais maluco!", ela pensou. Mas, por algum motivo, ela se sentiu bem.

As mulheres deveriam sorrir com mais freqüência.

texto

 Escrito por John às 14h22 []



Enquanto ele fala, a garota se perde num emaranhado de outros pensamentos.
Se o papo não for muito profundo, ela consegue essa proeza: conversar e divagar ao mesmo tempo.
E, no momento, o assunto dele é um punhado de amenidades.
Ela fica imaginando qual será a melhor hora para dizer o que precisa, mas conclui que não há.
O "adeus" parece sempre soar fora de hora.
A vida inteira, sempre ouvira essa palavra.
E, comodamente, sempre se colocara no papel de vítima.
Como se o fim fosse algum tipo de golpe que se aplica em corações ingênuos.
Hoje, ela percebe que não é bem assim.
Ela prevê que tipo de perguntas ele fará - todas as que, algum dia, ela também já fez.
E treina as respostas.
"Não, não estou saindo com outra pessoa."
"Não, você não fez nada de errado."
"Claro que gosto de você. Só não é mais como antes."
"Sim, eu tenho certeza."
"Não, não vou voltar atrás."
Esses pensamentos são interrompidos quando ele pega em sua mão.
E sorri e a encara com aquele olhar apaixonado.
Aquele, que brilha, lânguido e terno ao mesmo tempo.
E ela quase o odeia por isso.
Em outras circustâncias, trocaria qualquer coisa por um olhar daqueles.
Mas não agora.
Agora, ela precisa reunir forças.
Lembra-se que a decisão já foi tomada.
É melhor pôr um fim àquela história, antes que o estrago seja ainda maior.
Antes que o envolvimento dele os conduza a um caminho sem volta.
De onde será impossível que ambos saiam ilesos.
Ele a abraça, beija e sussura coisas bonitas em seu ouvido.
E ela acaba deixando tudo para amanhã.
Ela não se sente triste por ele.
Mas por si mesma.
Dizer "adeus" é quase tão difícil quanto ouvir.
- "Lágrimas por ninguém, só porque é triste o fim..."
- Como, amor?
- Hein?
- O que foi que você disse?
- Eu? Ah... Nada! Tava só... cantando.

texto

 Escrito por John às 11h59 []



A pequena reclama que eu nunca escrevo sobre ela no blog.
Talvez não tenha se dado conta que, de fato, eu nunca escrevo sobre ninguém.
Tudo aqui gira em torno de mim.
É a minha cabecinha perturbada.
No entanto, se eu dissesse que não existe uma musa, eu estaria mentindo.
A grande verdade é que ela não é uma pessoa só.
Tudo bem: admito que, ultimamente, os olhos, a boca e o perfume têm sido sempre os mesmos.
Mas a musa está mesmo é espalhada nas moças que surgem nestas linhas.
No senso de humor de uma.
Na presença de espírito de outra.
Na força da personalidade de uma terceira.
Num simples gesto ou numa frase dita por tantas outras.

Acho que sou um fetichista literário.

***

Estou te devendo um último presente.
Então pego meu violão e tento escrever uma canção pra você.
Sei como ela deve começar.
E sei como eu gostaria que ela terminasse.
Mas não sei o que fazer pra chegar até lá.
Me perco no meio do caminho.
Não sei que versos escrever, nem que acordes usar.
E tudo parece fugir do meu controle.

A arte imita a vida.

texto

 Escrito por John às 14h37 []



De repente, do nada, ela dispara mais uma das suas:
- Sabe duma coisa? Às vezes eu penso que a ignorância é uma bênção.
- Em que sentido?
- Tem horas em que eu preferia não ser tão... sensível.
- Hum.
- Acho que seria mais fácil viver sem tantas encanações, tantos dilemas existenciais, sabe? Queria parar de tentar achar explicação pra tudo e conseguir não ficar meia hora conversando sobre o mesmo assunto. Queria não dissecar as coisas, entende?
Começo a cantarolar:
- "Queria ser como os outros e rir das desgraças da vida. Ou fingir estar sempre bem, ver a leveza das coisas com humor..."
- Exato! Acho que as pessoas práticas são mais felizes. A ignorância é mesmo uma bênção.
- É, acho que sim... E aí, quer pegar um uísque?
Ela suspira.
- Boa idéia. Só nos resta beber.

***

- Quando chega o final do ano, eu sempre lembro da mesma música. É da Plebe Rude, chama "Este Ano". Tem um pedaço que fala assim: "Cada ano que passa, me faço a mesma promessa: no ano que vem, dessa vez eu sei, será diferente".
Ela parece intrigada:
- Não conheço essa música... Mas o quê exatamente você queria que fosse diferente?
- Ah, sei lá, uma porção de coisas, eu acho.
- Hum. Olha só: de qualquer maneira, seu ano já foi bem diferente. Você parou de fumar. Engordou. Ah, e seu jeito de ser tá diferente também. Você não parece mais aquele cara melancólico, anti-social e amargo. Tá vendo, uma porção de coisas!
- É, é verdade.
Ela percebe que eu ainda não estou satisfeito:
- Então tá. Vamos fazer o seguinte. Pra ser diferente mesmo, este ano você não vai lembrar dessa música que você falou. Você vai fazer como qualquer pessoa normal e vai lembrar daquela música da vinheta da Globo, sabe? "Hoje é um novo dia de um novo tempo que começou..."
- Putz, você tá me tirando, né?
- Hahaha, tô sim. Eu odeio essa música. Outro uísque?
- Fazer o quê...

***

- Sabe o que eu odeio de verdade? Quando o garçom traz uma Pepsi Twist e um copo com gelo e limão. Porra, a Pepsi Twist já não vem com "um toque de limão"? Será que se eu pedir Light, ele traz adoçante também?
- Hahaha! Outro dia um garçom veio me avisar que não tinha "Pépi Twister", só a normal. Aí eu disse: "Ah, então é melhor trazer a normal mesmo, porque essa aí eu não conheço".
- Puta, "Pépi Twister" é foda, hahaha!
Alguns segundos de silêncio.
- Mais "uíque"?
- Ná, acho melhor parar por aqui.
- Jura?
- Juro sim. Vou pegar uma "cerveza".
- Ah tá.

texto

 Escrito por John às 14h57 []




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