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O que é isto?
TERRENO BALDIO
 

Não é raro eu ficar calado numa mesa. Algumas pessoas se incomodam com isso, se ofendem até. Não as culpo. A impressão que fica é que sou anti-social, que não estou curtindo o papo ou então que me julgo superior demais para me misturar. Não é nada disso. Eu apenas prefiro ficar observando.
- É por isso então que a maioria das suas histórias é narrada em terceira pessoa, não em primeira?
Abro um sorriso. Ela sempre vem com essas perguntas, sempre tenta encontrar algum significado oculto em tudo. Tenho uma certa facilidade para me encantar com pessoas, ainda mais com alguém como ela. Provavelmente, é uma das mulheres mais bonitas que conheço. E não pára por aí: quando estou numa mesa com ela, também tendo a ficar calado. Mas é simplesmente porque o papo dela é tão envolvente que, se eu não me vigiar, quase sempre deixo a conversa se transformar num monólogo. "Você é tão articulada, quando fala não pede atenção". Viu só? Fico tão sem palavras que chego ao cúmulo patético de ter que citar Dinho Ouro-Preto...
- Não é exatamente por isso. Tudo bem, confesso que adoro contar histórias. Mas nem sempre elas são minhas, mesmo quando as invento. O motivo pelo qual não gosto muito de escrever em primeira pessoa é que, quando isso acontece, corro o risco de os leitores acharem que eu estou simplesmente narrando algo que aconteceu de verdade comigo.
- Entendo. Mas qual é o dilema? Afinal, todos os seus personagens têm um pouco de você. E todas as histórias que você inventa têm algo de verdade, não é mesmo?
- Sim, mas eu também posso ser um personagem e a verdade também pode ter algo de invenção.
Ela sorri de um jeito matreiro e seus olhos brilham.
- Bom, então acabamos de descobrir quem você é de fato. Você não é um escritor e nem um contador de histórias. Também não é um diretor de cinema frustrado. Você é simplesmente um sonhador, que quer moldar a realidade para que ela se encaixe naquilo que você pensa e acredita.
Dou de ombros, como quem diz "Talvez, quem sabe?" Ela continua sorrindo e agora aperta os olhos e simula uma expressão investigativa, como se estivesse tentando arrancar algum grande segredo de mim. Mas ela acaba desviando o olhar para o chão quando me pergunta:
- E eu? Eu apareço de vez em quando nessas histórias que você costuma inventar?

O tempo inteiro. Até nas que eu não escrevo.

texto

 Escrito por John às 11h33 []



Era um cartaz meio amarelado, do tipo lambe-lambe, espalhado em diversos muros e postes nos arredores da avenida Paulista. Dizia o seguinte:

"De longe e em silêncio,
ela me diz que ainda é possível
e, sem querer, salva o meu dia.
Só não me estende a mão
porque talvez não saiba que eu preciso.
Não tem asas, mas tem sorriso.
E isso me basta.

Para o anjo de cabelos castanhos e vestido florido que atravessou o cruzamento da Paulista com a Brigadeiro na última quinta-feira (25/11), por volta das 20h15. Se você me contar como se chama, escrevo outro desses, dessa vez com o seu nome!

Assinado: Ricardo R.
Fone: xxxx-xxxx"

***

Às vezes é preciso coragem para ser verdadeiramente poeta.

texto

 Escrito por John às 17h58 []



Gustavo acertou em cheio: Vera era louca para conhecer a tal Rua Normandia. Na verdade, ela era louca por qualquer coisa ligada ao Natal. Seus pais tinham se separado quando ainda era pequena, então ela teve que ir morar com a mãe. Mal via o pai, não se dava bem com as irmãs.
Assim que conseguiu caminhar com os próprios pés, Vera mudou-se para São Paulo. Ou seja, não teve um convívio familiar tradicional e, conseqüentemente, nunca teve um Natal daqueles clássicos, com todo mundo fazendo a ceia em torno da árvore montada, as luzes, os enfeites, o presépio, as crianças esperando para descobrir o que o Papai Noel tinha trazido...
- Minha mãe só deixava a gente abrir um presente na véspera. Eu e meu irmão tínhamos que esperar até a manhã seguinte para abrir o restante dos pacotes, disse Gustavo.
Vera olhou para ele e sorriu. Adorava quando o namorado dividia essas lembranças natalinas da infância. Era como se ele estivesse descrevendo o sabor de um prato que ela nunca havia provado - nessas horas, sua imaginação entrava em ação e ela quase podia sentir o gosto.
Sua atenção foi desviada por dois garotos que passaram correndo, esbarrando em todo mundo, desesperados para ver de perto umas renas de resina que mexiam a cabeça e as patas e emitiam uns sons estranhos (Vera desconhecia o som que as renas de verdade faziam). Gustavo disse:
- Sabe por que te convidei para vir aqui? Não foi só para conhecer a Rua... Eu também tenho um assunto importante para falar com você.
Vera se divertia com aquela mania do namorado - ele só conseguia discutir andando. Nunca podiam conversar sobre nada sério num restaurante ou em casa. Uma caminhada sempre se fazia necessária.
- Eu acabei não te contando como foram as coisas lá na casa do Rafael.
Gustavo tinha passado o final de semana anterior na casa do irmão. Depois que se casou, Rafael, o mais velho, tinha se mudado com a esposa (e o bebê que ela trazia na barriga) para o interior. Era uma daquelas pessoas que preza pela qualidade de vida acima de qualquer outro tipo de conforto.
- Então me conte, como foi?
- Bom, na verdade, foi tudo normal. A não ser por uma longa conversa que tivemos...
Vera franziu a testa. Não fazia a menor idéia de onde o namorado queria chegar.
- Ah, a gente conversou sobre um monte de coisas. Sobre o futuro, inclusive.
Ela disse um "hum", que na verdade significava "continue". Gustavo obedeceu.
- O Rafael me fez enxergar umas coisas, entende?
Alguns pingos começaram a cair. O sábado tinha sido ensolarado e quente, mas a meteorologia tinha previsto tempo chuvoso para o domingo à tarde. Gustavo apressou-se:
- O fato é o seguinte: depois de eu ter ficado horas falando sobre o que eu espero e planejo para o meu futuro, ele me interrompeu e perguntou: "Você já reparou que, em tudo o que me disse até agora, no meio de todos esses seus planos malucos, confusos e, se me permite dizer, adolescentes, só existe uma coisa constante? A única coisa fixa, a única coisa certa nessa sua cabecinha é a Vera - você repete o nome dela o tempo inteiro".
Os pingos começaram a engrossar. E Vera quase agradeceu, pois seus olhos haviam se enchido d'água. Ela abriu a boca para dizer algo, mas foi interrompida por alguém cutucando seu ombro. Ela se virou e deu de cara com um homem vestido de Papai Noel.
- Ho-ho-ho! A mocinha se comportou bem este ano?
Ela olhou intrigada para o velhinho fantasiado. Depois olhou para Gustavo, que apenas sorria.
- Não sei ao certo, quero crer que sim, ela balbuciou.
- Então tome. Aqui está o seu presente.
Vera ficou sem-jeito, quis dizer que não era preciso, mas o homem deu as costas e respondeu que Papai Noel não aceita devoluções. Ela riu e se voltou para o namorado, com uma cara de "cada um que me aparece..."
- Bom, mas você não vai abrir o seu presente?, perguntou Gustavo.
Bem que ela estava achando aquela história esquisita. Vera abriu a caixa, que trazia apenas um cartão lá dentro. Abriu-o e, para sua surpresa, havia um anel preso com fita adesiva. Logo acima, a frase "case-se comigo", assim mesmo, no imperativo. Como na canção da Vanessa da Mata.
Ela só teve tempo de exclamar "não acredito!", pois logo em seguida um temporal começou a desabar. Gustavo pegou-a pela mão e levou-a correndo para debaixo da área coberta mais próxima. Chegaram tarde, já tinha uma porção de gente ali. Correram até o próximo telhado, mas encontraram-no igualmente abarrotado de pessoas. A cena se repetiu mais três ou quatro vezes e, àquela altura, o casal já estava ensopado. Gustavo respirava ofegante, com cara de mal-humorado, como se São Pedro tivesse resolvido estragar um dos dias mais importantes da sua vida. Mas Vera só conseguiu rir. O namorado rendeu-se e começou a rir também.
- Foda-se, já estamos encharcados mesmo. Vamos caminhando até o carro.
Enquanto uns corriam atrás de abrigo e outros se aventuravam com um guarda-chuva, o casal andava tranqüilo, resignado. Na verdade, Vera adorava tomar banho de chuva. Finalmente chegaram ao carro e, assim que entraram, ela disse:
- Eu não te dei uma resposta, né?
- Mas nem precisa ser agora. Acho que você ainda tem que pensar...
Ela apenas sorriu e o beijou.

Anos mais tarde, já viúva, Vera contava pela enésima vez aquela história. Suas netas se derretiam com aquele romantismo, embora as mais velhas às vezes duvidassem que aquilo tudo tivesse acontecido de fato. Mesmo assim, todas suspiravam e pediam para a avó repetir a parte em que o Papai Noel chegava com o pacote. Ou a parte em que ela e o vovô caminhavam de mãos dadas no meio do temporal.
Ela atendia aos pedidos, satisfeita. Mas se emocionava mesmo era com outro trecho.
"A única coisa fixa, a única coisa certa nessa sua cabecinha é a Vera - você repete o nome dela o tempo inteiro".
No fundo, era o que ela sempre quis: ser a única certeza na vida de alguém.

texto

 Escrito por John às 16h34 []




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