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O que é isto?
TERRENO BALDIO
 

Quando eu era pequeno...

... minha mãe nunca deixava eu usar aquela roupa ou tênis novo que eu havia acabado de ganhar. Ela dizia que era melhor eu guardar e usar somente quando fosse sair. Por "sair", entenda-se: ir a uma festinha de aniversário ou a algum outro daqueles eventos extraordinários que fogem da rotina na vida duma criança.
E lá ficava eu, morrendo de vontade de usar a tal roupa, enquanto ela ficava guardada no armário. E eu nunca sabia dizer quantas vezes eu tinha que usar uma "roupa de sair" para que ela deixasse de ser "de sair" e se tornasse "do dia-a-dia".
Minha mãe só se esquecia de um pequeno detalhe: a "fase de crescimento". Um garoto vive crescendo (para cima ou para os lados, não importa) e, por isso mesmo, vive também perdendo um monte de roupas e calçados. Se o garoto tem um irmão mais novo, tudo bem: as roupas viram "herança". Mas no meu caso, como eu já sou o caçula, o destino das peças perdidas era mesmo a doação.
E devo dizer que tive que doar um monte de roupas que usei bem menos vezes do que gostaria.
Vai ver que é por isso que hoje em dia eu não guardo NADA.
Ou talvez eu esteja apenas saindo mais...

***

... eu vivia pensando:
- Quando chegar o ano 2000, eu vou ter vinte e três anos... Noooooossa, VINTE E TRÊS anos!
Eu não conseguia nem sequer imaginar como seria a minha vida aos vinte e três anos de idade.
E foi melhor assim. Eu teria ficado decepcionado...

***

... eu gostava de um episódio dos Super Amigos no qual o Super-Homem enfrentava o Super-Homem Bizarro. Era um vilão vindo do Mundo Bizarro, um universo paralelo no qual tudo era às avessas. Por isso, o Super-Homem de lá era bandido e não mocinho.
Prato cheio para um guri. Ficava tentando adivinhar como seria o meu "eu" no Mundo Bizarro. Se lá tudo era ao contrário, então eu teria todos os brinquedos que eu nunca tive aqui. Mas depois eu lembrava que, em contrapartida, lá provavelmente eu estaria sempre de castigo por ter tirado nota baixa na prova ou então teria que ter aula particular para conseguir passar na recuperação. Ou seja, não aproveitaria nada.
Taí, um bom exercício para lembrar que às vezes a gente chora de barriga cheia.

No Mundo Bizarro, eu saberia fazer tudo o que não sei fazer aqui:
- andar de bicicleta
- tocar violino
- conquistar o coração de qualquer mulher.
Mas seria bruto e imbecil demais para enxergar o valor disso tudo.

texto

 Escrito por John às 10h11 []



Ring!

O celular toca insistentemente.
Desesperada, ela pára de prestar atenção na conversa que está rolando na mesa e inicia uma caçada implacável em busca do aparelho, que provavelmente se esconde em algum canto daquele "buraco negro" que é sua bolsa.
Quando ela finalmente encontra o maldito, já se foram toques suficientes para que a pessoa do outro lado da linha desista da ligação - ou, pior ainda, para que a caixa postal entre em ação.
Ela sabe disso e deixa essa preocupação transparecer em seu semblante e em sua voz quando diz: "Alô?"
Mas logo fica evidente que nenhuma das duas possibilidades se concretizou.
Porque ela abre um sorriso e seu rosto se ilumina.
E diz um "Ooooi..." derretido, quase cantado.
Em seguida, se levanta e caminha em direção a um canto afastado, longe dos ruídos e da agitação.
Onde ela pode ouvir melhor. Onde ela pode falar à vontade.
De onde estou, consigo vê-la.
Está de costas, encostada numa parede, um pouco encolhida e com a cabeça inclinada para o lado.
Como se estivesse aconchegada numa cama quente e macia. Ou nos braços de alguém.
Enquanto uma das mãos segura o telefone, a outra brinca de enrolar os cabelos.
Ela permanece de costas, mas posso afirmar, sem sombra de dúvida, que continua sorrindo.
E ninguém na mesa entende quando digo:
- Era só isso o que eu queria pra mim...

texto

 Escrito por John às 16h12 []



Eu sei como deixar uma mulher sem palavras.
Mas e daí?
Nunca consigo fazê-la dizer o que quero ouvir.

***

- Você nunca mais teve vontade de fumar?
Ela pergunta, enquanto sopra a fumaça para o lado. Talvez por medo de incomodar (ou tentar) um ex-viciado.
Respondo que tenho sim, de vez em quando. Mas que nunca chego a sequer considerar a hipótese de consumar essa vontade.
- Muito bem. Quisera eu ter essa determinação.
A bituca é amassada no cinzeiro. Ela agora quer saber sobre os nossos amigos em comum.
Começo o relatório. Fulano está bem agora, depois de ter passado por uns maus bocados. Beltrano anda sumido. Sicrano está empolgado, saindo com uma garota que conheceu há pouco. Ela me interrompe:
- E quanto a você?
Encho meu copo de cerveja, dou de ombros e digo: "E eu, nada". É o que sempre respondo.
Ela está sorrindo quando tomba seu copo para que eu o encha também. E dispara:
- Você ainda a ama?
Agora quem está sorrindo sou eu. A questão é meramente retórica. Ela não se refere a ninguém em especial - ou, pelo menos, a ninguém que ela saiba de fato quem é. Ela só perguntou aquilo para mostrar que me conhece melhor do que qualquer um. Ela sabe que eu SEMPRE estou amando alguém. Exibida...
Sei que não é possível escapar, então apelo para o cinismo ensaiado: "Não sei do que você está falando..."
Ela dá uma gargalhada alta e gostosa e começa a brincar com o elefantinho roxo que está em cima da mesa e que eu uso como chaveiro. Aos poucos, seu sorriso vai tomando um ar melancólico, como se tivesse lembrado de algo triste.
- Acho que você se parece com o seu chaveiro. Dizem que os elefantes nunca esquecem.
É, ela realmente me conhece melhor do que qualquer um.

***

Uma mulher nunca consegue me deixar sem palavras.
Mas e daí?
Ela sabe como tirar o meu sono.

texto

 Escrito por John às 10h29 []




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