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O que é isto?
TERRENO BALDIO
 

Um brinde às possibilidades

Que tal?
Se não gostar de capuccino, pode ser um suco ou uma água sem gás.
Mas só para garantir, te levo também um presente, uma surpresa.
Porque eu sou bobo assim mesmo...
E isso é tudo o que é preciso saber a meu respeito.

Capuccino
(Zélia Duncan/Dulce Quental)

Eu vou te convidar prum capuccino
Não é whisky, nem vinho, é só um capuccino
Com gosto de manhã e brisa de canela
Eu vou te convidar para uma valsa moderna
Dessas que se vê no cinema
E te darei um beijo congelado em close-up
Pela eternidade dos dias e a finitude dos corpos

Brindaremos lado a lado, como namorados
Tomando o nosso capuccino, sem pensar em nada
Nem na morte, nem na vida, muito menos no futuro
Nem nos que ficaram pra trás
Sentindo apenas a brisa do presente
Sorvendo o gosto da vida, na espuma dos dias
Que passam por nós assim como somos

Pó e chantilly
Creme e café
Chocolate e canela

texto

 Escrito por John às 12h51 []



"E a vida é fácil assim: de algum modo se resolve e fim..."

Não sei se a Mafê estava falando sério ou não quando me disse: "Quando estiver em Madrid, inspire-se e escreva uma canção."

Mas a verdade é que fiquei com aquilo na cabeça...

Nunca fui muito hábil no trato com harmonias e melodias. Composição musical para mim sempre foi (e ainda é) algo totalmente instintivo. Não me perguntem como funciona - na maioria das vezes, nem sei que acordes são aqueles que invento de encaixar no meio duma canção e nem sei de onde surgem as linhas melódicas que tento esboçar.

Posso dizer que só entendo mesmo é de palavras.

Esse processo é tão acidental que, quando termino de fazer uma música, fico sempre com a impressão de que nunca mais conseguirei fazer aquilo novamente.

Era janeiro de 2003, chegamos em Madrid logo pela manhã: eu, meu chefe, o gerente comercial da editora e um dos nossos clientes. Morrendo de sono, mas animados para conhecer a cidade. Afinal, passaríamos pouco mais de vinte e quatro horas lá, uma vez que nosso vôo para Nice partitira no dia seguinte, logo após o almoço. Chegamos no hotel, deixamos nossa bagagem e fomos caminhar.

Ficamos hospedados em Puerta del Sol, uma espécie de "Praça da Sé de Madrid". A diferença é que não é exatamente uma praça. É mais como uma quadra, de onde partem todas as principais vias da cidade. Era tão cedo que a cidade estava totalmente morta - não havia nenhum estabelecimento comercial aberto, nem para tomar o "desayuno".

Caminhamos durante horas: Calle de Alcalá, Paseo de Recoletos, Gran Vía, Calle Mayor... No fim da tarde, voltamos a Puerta del Sol e o lugar parecia outro: ao invés de um quarteirão vazio, tinha se transformado num desfile de pessoas, cores e luzes. Talvez fosse influência dos passeios e das belezas que eu tinha apreciado durante o dia - Museu do Prado, Jardim Botânico, Plaza de España... -, talvez eu estivesse olhando tudo com outros olhos ou talvez o lugar tivesse realmente se transformado. Mas comecei a pensar em alguns versos, que surgiram já com uma melodia pronta. No hotel, gravei aquelas idéias (um lado bom de ser jornalista metido a compositor é andar o tempo todo com um gravador). De volta ao Brasil, com o violão na mão, "tirei" a base dessa melodia, tendo que adaptá-la e simplificá-la bastante, por causa das minhas limitações técnicas.

"Puerta del Sol" acabou se tornando uma das minhas músicas preferidas, não só pela historinha acerca de sua composição, mas também porque a letra é concisa de um jeito que eu dificilmente consigo ser. É como uma metáfora dupla. A praça vazia, que de repente se enche de gente, traduz exatamente a mesma imagem da música que aparece do nada na sua cabeça. E, da mesma forma, ilustra certos momentos da vida: às vezes, a resposta surge bem ali na sua frente, vinda não se sabe de onde.

Este post vai para a Mafê, pela inspiração (o verso final é dela); para o Barba, pelo empenho em gravar a base da música; e para a Sílvia, por emprestar sua voz doce para trazer um pouco mais de sol para a canção.

E para todos aqueles que algum dia já conseguiram enxergar poesia onde os outros só conseguem ver rotina.

PUERTA DEL SOL
(letra & música: John)

Ó, meu anjo,
ainda há tanto o que cantar.
Se não me engano,
tenho quase um milhão de versos aqui submersos,
esperando só a musa vir os libertar.

Quem diria, a espera é em vão...
Já tenho a poesia aqui à mão.

Eis que então a canção se faz soar.
Como essa gente, que chega de repente
à praça antes vazia,
desde Gran Via
hasta la Calle de Alcalá.

E a vida é fácil assim:
de algum modo se resolve e fim.

Tanto tempo com um peso a carregar.
Sem sacar que era preciso apenas
deixá-lo onde está.

Já não temo mais errar,
pois o maior erro é não tentar.

Ó, meu anjo,
ainda há tanto o que sonhar.
Mas não me engano,
já não me perco em planos, em prantos ou penar.
Quero crer
que viver vai me bastar.

Madrid, 17 de janeiro de 2003.

texto

 Escrito por John às 15h19 []



"Hello, darkness, my old friend..."

Deve ter sido entre 1997 e 1998. O evento: uma festa da faculdade de medicina da Unisa. "A Festa do Transplante de Cabeça". Era assim que se chamava, mas só fiquei sabendo desse detalhe outro dia desses. O local: a casa do Tony, que na época ainda nem tinha passado pelas reformas. Foi lá que rolou o histórico show de estréia do Ahimsa, no qual eu e o Barba tocamos durante mais de cinco horas seguidas, com um único intervalo para trocar uma das cordas do violão. Antes dessa maratona de música começar, o Leonardo me apresentou um amigo seu da época do cursinho. Um rapaz com ar reservado, loirinho, de olhos claros.
- John, este aqui é o Marineli.
Ele me emprestou uma palheta. Mas o que mais me chamou a atenção mesmo foi sua voz, quando ele cantou Beatles com a gente. Depois, ele e o Barba fizeram um dueto: "Sounds of Silence", do Simon & Garfunkel.
- Porra, o cara canta pra caralho!, pensei comigo.

***

Acordamos na casa da namorada do Marineli, em São Manuel. Foi a única vez que o Plano B tocou fora de São Paulo. Fomos muito bem recebidos por todos. Ele tinha passado a noite na casa da avó, mas assim que acordou, veio se juntar a nós. Logo pela manhã, já estava rolando um churrasco daqueles. Ficamos nos empanturrando de carne e cerveja. Passadas algumas horas, a dona da casa veio nos avisar:
- Gente, já vou servir no almoço na sala, tá?
"E o que a gente tava fazendo até agora?", pensamos os quatro.
O show foi ótimo. Mas eu sabia que aqueles momentos é que iriam ficar gravados na minha memória.

***

Depois do penúltimo show do Plano B antes do Barba viajar para a Inglaterra, o Marineli veio conversar comigo. Dos quatro, eu e ele éramos sempre os mais sonhadores e confiantes de que, um dia, a banda seria famosa e que poderíamos viver de música. "É só questão de tempo", eu costumava dizer a ele.
- É, japonês. Que pena que não deu certo...
- Como assim? Já deu certo!
Não foi só da boca para fora que respondi aquilo. Apesar das coisas não terem tomado o rumo que a gente imaginava, eu não me sentia derrotado. Como diz a música dos Paralamas, "o viajar já é mais do que a viagem". Sempre foi um prazer tocar com a banda, não só nos shows, mas também nos ensaios. Aliás, sempre foi um prazer o simples fato de nos encontrarmos toda semana.
E eu continuo pensando assim.

***

Este post é em homenagem ao Marineli, que faz aniversário hoje.

Acho que a melhor coisa que posso dizer a respeito dele é o seguinte:

- Ele não é o guitarrista do Plano B. Ele é meu amigo.

Congratulations, buddy.

texto

 Escrito por John às 16h16 []



Cenas de um coração solitário

Foi apenas um gesto, mas cheio de detalhes.
Ela prendeu os cabelos, como se fizesse um rabo-de-cavalo. Em seguida soltou-os.
Nas mãos, unhas cuidadosamente feitas e pintadas de vermelho vivo.
No pescoço, três estrelas coloridas tatuadas.
No ar, um pouco do seu perfume se desprendeu, como uma brisa noturna.
Por uma fração de segundos, parecia que ela ia se virar.
E seu perfil então anunciava a segunda aurora do dia.
Prendi a respiração.
Mas foi apenas um gesto.
Ela foi embora sem olhar para trás.
Sem se curvar para a platéia.
Quanta coisa cabe numa fração de segundos...

***

- Bom dia... Nossa, como você tá bonita hoje!
Ela enrubesceu. Mas abriu um sorriso de orelha a orelha.
- Ai, jura? Tô tão largada...
- Você fez alguma coisa no cabelo?
- Não... Na verdade, nem tive tempo de passar creme, nem nada.
- Hmmm. Mas tem algo diferente... Brincos novos?
- Não, esqueci os brincos em casa, tô usando uns que achei jogados na bolsa.
- Já sei. Então é essa blusinha sexy.
- Magina! Essa é tão velhinha, tá até meio surrada já.
- Bom, você tá ovulando, tá no seu período fértil?
Fez uma cara de interrogação, depois fez as contas.
- É, acho que sim... Por quê?
- Então é isso. Não é que você tá bonita, são só os hormônios...
- Ai, seu ridículo, some daqui!!!
E me expulsou, atirando a agenda em cima de mim.
As mulheres nunca sabem o que querem.

***

O fato de ser friorento freqüentemente me causa transtornos.
A temperatura pela manhã estava amena.
Isso me fez sair de casa vestindo duas camisetas.
Uma de manga longa por baixo e outra de manga curta por cima.
Mas à tarde eu já estava sentindo calor.
Minha sala não tem ar condicionado.
Não havia uma núvem no céu, o que significava que a chuva não viria refrescar.
Largado no canto, estava um daqueles ventiladores que se compra por 25 "real" em qualquer esquina.
Quebrado, é claro.
Tinha se transformado em mera peça decorativa.
Para meu alívio, um vento forte começou a soprar sala adentro.
E o ventilador começou a rodar.
- Que ótimo, paguei 25 "real" por um catavento...
Lembrei da música dos Carpenters:
"So here I am with pockets full of good intentions. But none of them will comfort me tonight."
E pensei que meu coração é como um ventilador de 25 "real".

texto

 Escrito por John às 12h28 []



Não sou eu quem sente tua falta.
É meu corpo.

São meus olhos, que gravaram tua imagem em minha retina.
Minhas mãos, que ainda tateiam no escuro à tua procura.
Meu nariz, onde ficou guardado o cheiro da tua nuca.
Meus ouvidos, que esperam ansiosos pelo som dos teus passos.
É minha boca, que não consegue esquecer o gosto dos teus lábios.

Tenho cinco sentidos, mas uma só direção.

Eis o tropismo do meu coração.

***

P.S.: Sabe aquela carta do outro dia? No fim das contas, acabei enviando-a. Porque lembrei de uma certa música que diz: "Não importa quem eu sou, o que importa é você saber... É sempre bom saber."

texto

 Escrito por John às 01h47 []




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