O dia em que caí de amores
Estava na redação da revista. Meu ramal tocou, eu atendi. A Débora me passou a ligação. Era a Silvana Cardoso, uma das assessoras de imprensa mais simpáticas e gentis que conheço. Perguntou como eu estava. Ficamos tentando nos lembrar há quanto tempo não nos falávamos. Conversamos sobre o clima, sobre conhecidos em comum e sobre mais alguns outros assuntos genéricos.
Passada essa introdução, ela expôs o motivo da ligação: ela precisava de uma ajuda minha para tentar encaixar uma pauta na revista. Disse que estava fazendo assessoria para um cantora nova, que estava prestes a lançar seu disco de estréia. O CD tinha sido produzido por Jaques Morelenbaum, Luiz Brasil, Dadi & Kassin e Liminha. O repertório era autoral, incluindo parcerias com Chico César e Lokua Kanza. E a moça já tinha composições suas gravadas por Maria Bethânia, Daniela Mercury e Ana Carolina. Um currículo de respeito, fiquei impressionado.
- O nome dela é Vanessa da Mata, me disse a Silvana.
E acrescentou que já tinha enviado o disco pelo correio e que, em breve, eu o receberia. Nesse meio tempo, sugeriu que eu procurasse ouvir "Onde Ir", a primeira música de trabalho, que tinha sído incluída na trilha da novela das oito. Geralmente, não costumo cair nessas conversas de assessor de imprensa, mas a Silvana falou com tanta propriedade que resolvi pegar a trilha da Esperança só para ver do que se tratava. Coloquei o CD para rodar no computador.
"Eu não sei pra onde o mundo vai, nesse breu vou sem rumo. Só sei que o mundo vai de lá pra cá, andando por ali, por acolá. Querendo ver um sol que não chega, querendo ter alguém que não vem". Na verdade, foi aí que tudo começou.
Uns dias depois, recebi o tal disco. Além desse primeiro single, o repertório incluía ainda "Não Me Deixe Só", "Case-se Comigo" e uma porção de outras preciosidades. Isso bastou para eu começar o lobby junto ao editor-chefe da revista e tentar arranjar uma matéria de página inteira com a cantora. Em horas como essa, a formação como publicitário/marketeiro serve para algo útil: vendi meu peixe e marquei a entrevista.
Agendei um horário e fui até o escritório da Sony Music. Sozinho. A Andréa, fotógrafa da revista, tinha um outro compromisso naquele dia. Como de costume, cheguei uns dez minutinhos antes, então fiquei conversando com a Ana Paula, assessora da Sony. Quando chegou o horário, ela me encaminhou até a sala onde seria realizada a entrevista.
A porta se abriu e eu me deparei com uma moça alta e magra. Os cabelos estavam presos. Trajava um vestido do tipo indiano. Sem nenhuma maquiagem. Linda.
O papo começou. Na verdade, foi praticamente um monólogo. Só balbuciei meia dúzia de perguntas. Ela me contou sua história, desde suas primeiras memórias musicais, escutando rádio AM em Alto Garças, no Mato Grosso, sua terra-natal. Falou sobre como ela fugiu de casa e da carreira de médica, indo parar em Belo Horizonte, onde começou a cantar na noite. Lembrou de quando quase se mudou para a Jamaica, acompanhando a banda de reggae da qual era integrante. Enumerou encontros marcantes e decisivos em sua carreira: Baden Powell, Chico César, Maria Bethânia, Swami Jr. Explicou como funciona seu processo de composição. Ela falava, gesticulava e me olhava nos olhos. Normalmente, eu odeio quando algum entrevistado resolve cantar durante a entrevista, mas achei o máximo quando ela quis ilustrar o papo sobre o sambista Assis Valente cantando um trechinho daquela música "Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel..."
E normalmente, eu odeio ainda mais quando algum entrevistado resolve perguntar minha opinião pessoal sobre o disco. Mas quando ela quis saber qual música eu mais tinha gostado no CD, respondi sem pestanejar que a cada audição, eu elegia uma nova preferida. E que, naquele momento, era "A Carta (Ano de 1890)". Ela então perguntou se havia alguma música que eu não gostava. Respondi que não, mas que "A Força Que Nunca Seca" não tinha me causado tanto impacto, pois já conhecia a versão que a Bethânia tinha gravado. Terminada a entrevista, eu agradeci a atenção e ela me cumprimentou com um beijo no rosto.
Saí da sala pisando nas nuvens e com cara de abobado. Passei na sala da Ana Paula para me despedir e ela perguntou o que eu tinha achado da cantora.
- Magnética, respondi.
Tempos depois, descobri algumas coincidências: a Vanessa da Mata é vizinha da Sibyle e é amiga de uma amiga da Vivian. Pois é, são coisas do destino. Fomos feitos um para o outro.
Pena que ela ainda não sabe disso...
***
Nossa história de amor continua até hoje. Por sinal, à noite tem show dela no DirecTV Music Hall.
Ah, e eu ainda tenho a fita cassete na qual gravei aquela entrevista. De vez em quando, eu ouço o trecho em que ela canta para mim: "Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel..." texto
Escrito por John às 17h30
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"A gente que enfrenta o mal, quando a gente fica em frente ao mar, a gente se sente melhor..." (Trecho da canção "A Letra A", do Nando Reis)
Eu PRECISO de paliativos.
Não existe problema que possa ser resolvido do dia pra noite e nem sonho que se realize sozinho, por conta própria. Tudo demanda tempo e energia. E certas coisas dependem da ação de terceiros. Ou pior: do acaso. E eu não quero ter que pensar nisso o tempo todo.
Mas um único dia pode fazer toda a diferença.
Que tal esse último sábado? Hoje é quarta-feira e tudo continua no mesmo lugar. Nenhuma solução brilhante despencou miraculosamente dos céus bem na minha frente.
Mas pelo menos pude lembrar que a maresia tem poder curativo. E que não vejo mal nenhum em tomar a primeira cerveja logo às nove da manhã. E que prefiro uma boa conversa do que qualquer balada, ainda mais se música e cinema estiverem na pauta. E que acredito realmente que falar bobagem às vezes é a coisa mais construtiva a se fazer. E que amo rir até a barriga doer.
E que é muito bom poder olhar nos olhos da pessoa de quem você gosta, sentir seu coração se inundar de felicidade e, ao mesmo tempo, conseguir esquecer, pelo menos por um dia, que existem razões pra ficar triste.
Tudo continua no mesmo lugar. Mas por mais que às vezes eu me sinta cansado e perdido, existe uma coisa que me faz ter certeza de que estou no caminho certo:
- Eu vivo cercado de pessoas maravilhosas.
E ISSO não é paliativo. texto
Escrito por John às 18h57
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Só um pouco de melancolia. E a culpa não é do clima. A tradição chuvosa de Finados foi quebrada. Mas tudo bem. Não tenho muitos mortos para visitar. A maioria dos meus fantasmas ainda mora aqui comigo. texto
Escrito por John às 23h42
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