"Ouvir teus passos como quem espera o sol nascer..."
Eu me lembro como se fosse hoje do dia em que escutei pela primeira vez a música "O Teatro dos Vampiros", da Legião Urbana. Eu cursava ainda a oitava série do primeiro grau, era 1991 e eu tinha 14 anos. A expectativa era grande, afinal o disco anterior da Legião tinha sido monstruoso, "As Quatro Estações", era o disco que TODO MUNDO tinha e que TODO MUNDO sabia TODAS AS MÚSICAS... Assim, o disco novo TINHA que ser, no mínimo, tão bom quanto. Quando me disseram que tinha música nova deles na rádio, pirei. Mas, quando fui ouvir a tal música... "Decepção" talvez seja a palavra adequada. Não era nada daquilo o que eu esperava ou queria ouvir. Na verdade, nem entendi muito bem o que dizia aquela música...
Avançamos para 1995, primeiro ano de faculdade. Em quatro anos, muita coisa pode acontecer, ainda mais na transição entre a adolescência e o início da vida adulta de um sujeito... Foi quando eu ouvi novamente "O Teatro dos Vampiros" e foi como se eu escutasse aquela música pela primeira vez de verdade. De repente, tudo fez sentido. Todos os versos que tinham passado indiferentes aos ouvidos do adolescente agora soavam extremamente verdadeiros para aquele projeto de jovem adulto. "Quando me vi tendo de viver comigo apenas e com o mundo, você me veio como um sonho bom. E me assustei, não sou perfeito: eu não esqueço. A riqueza que nós temos, ninguém consegue perceber. E de pensar nisso tudo, eu, homem feito, tive medo e não consegui dormir..." Nem mesmo se eu tivesse escrito com meu próprio punho aqueles versos poderia haver identificação maior.
Toda essa historinha serve apenas para dizer o seguinte: é curioso notar o quanto a mesma música pode significar e representar coisas diferentes quando você a ouve em diferentes momentos da sua vida. Quem sabe, amanhã você pode lembrar com nostalgia de uma música que hoje te faz ficar meio triste...
Tem uma letra que eu me orgulho muito de ter escrito. Durante muito tempo, tive uma relação meio contraditória com ela. Ao mesmo tempo em que eu me sentia feliz por tê-la escrito, também me sentia um pouco triste por saber que, no fundo, tudo aquilo não passava de ficção. Foi uma tentativa de descrever uma situação ideal que eu não conhecia, apenas imaginava. Eu buscava aquilo pra minha vida e, num determinado ponto, larguei mão. Achei que era perda de tempo e fui escrever tristezas e tentar ser mal do século...
Um belo dia, sem mais nem menos, como diria Leoni, "chegaram as tardes de sol a pino". E de repente, a tal letra deixou de ser invenção pra ser verdade. E o mais irônico, sem nem ao menos eu ter procurado por isso.
Acho que essa é a graça da vida. Amanhã talvez eu volte a escrever versos tristes, mas não importa. Por enquanto, eu deixo escapar um sorriso...
E não digo isso apenas por causa do fim de semana...
Ei-la:
CAMPOS DE TRIGO
Um verso que se encaixa, o ar que às vezes falta
A vida em um suspiro, um sorriso que escapa
Fizeste do teu nome o presente mais bonito
E o repito um milhão de vezes como uma prece
Como um coração que canta e desmancha a neblina
Pois me ensinaste a ver o mundo com olhos de poesia
Tudo à minha volta é tua presença que me envolve
E assim toda a dor e todo o medo somem
Como o longo sonho ruim que enfim se foi
Como o pior inverno que agora se encerra
Quanto menor o espaço entre nós dois
Menor é a distância entre o céu e a terra
Amanhã te vejo e desde ontem sou feliz
O preço da espera é saber o que está por vir:
Ouvir teus passos como quem espera o sol nascer
Como a lua é a promessa de em teus olhos me perder
E esse teu riso soa como a mais bela sinfonia
E tua voz me alcança em todas as melodias
Pra lamentar tua ausência em acordes tristes
E cantar canções alegres por lembrar que tu existes
É bem melhor sonhar com os olhos abertos
É muito melhor viver contigo aqui por perto
O tempo gasto pensando em ti não é desperdiçado
Mas é o que faz mais importante estar ao teu lado
São Paulo, 17 de julho de 1998. texto
Escrito por John às 02h27
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