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O que é isto?
TERRENO BALDIO
 

VOCÊ SABIA?

Se você for até a página do GOOGLE, digitar "caminhão de lixo" (assim mesmo, entre aspas) e clicar no botão "Estou com sorte", ele te trará aqui de volta...

;-)

E caso queira saber por onde anda o motorista do CAMINHÃO DE LIXO neste momento, basta CLICAR AQUI.

texto

 Escrito por John às 15h01 []



Não, você não leu errado.

Este espaço realmente mudou de nome. Agora se chama Terreno Baldio. Isso porque, a partir de agora, nada mais será publicado aqui. Este blog será apenas um depósito de tralhas.

Isso não significa que eu larguei a vida de nerd "blogueiro". Na verdade, o CAMINHÃO DE LIXO apenas passou por uma remodelagem e foi estacionar em outra vaga.

Para conhecer o novo CAMINHÃO, clique AQUI ou no link aí à sua esquerda, na seção "Outros Sites".

Nos vemos por lá!

texto

 Escrito por John às 21h10 []



A lenda de Jesus, o Cristo,
que foi concebido pelo Espírito Santo e nasceu da Virgem Maria
para nos redimir de nossos pecados.

Todo mundo provavelmente já deve ter ouvido falar na história do príncipe Sidarta Gautama, que abandonou a corte de seu pai para viver como um mendigo eremita. Através da meditação, ele atingiu a iluminação espiritual e se tornou o Buda. Tem também a história de Krishna, um dos dez avatares de Vishnu, deus responsável pela manutenção da humanidade e que, ao lado de Brahma e Shiva, forma a suprema trindade do hinduísmo. Sempre que um grande mal ameaça a terra, Vishnu envia um de seus avatares (algo como as "encarnações" do deus) para nos salvar. E tem ainda a história do profeta Maomé, que, através de Jibreel, recebeu os ensinamentos de Alá, que posteriormente foram transcritos para formar o Alcorão, a bíblia dos muçulmanos.
Nós, os ocidentais, que em grande maioria praticamos o judaísmo ou alguma forma de cristianismo, temos o hábito de encarar as crenças orientais como bobagens, mitos pagãos ou então como se fossem histórias fantásticas, parábolas, meros contos-de-fadas. Dificilmente paramos para pensar que os orientais provavelmente pensam o mesmo a respeito de Deus e Jesus. "Mas acontece que a história de Deus é real, Jesus é um personagem histórico", defenderiam alguns de nós. É mesmo? E o quê exatamente nos faz acreditar que as NOSSAS histórias é que são reais, e não as DELES? Não seria apenas questão de fé? E, por acaso, não é a fé algo tão subjetivo quanto a convicção política, o gosto por determinado tipo de música ou a paixão por este ou aquele time de futebol? Pensemos da seguinte forma: hoje em dia, enxergamos as crenças da Antiguidade como lendas. Nós as chamamos genericamente de "mitologia greco-romana". Será que, daqui a milhares de anos, os habitantes deste planeta não irão enxergar as nossas crenças da mesma maneira? Não as chamarão de "mitologia judaico-cristã"?
Assim como o preconceito racial e sexual estão profundamente arraigados em nossa sociedade, o mesmo acontece com o preconceito religioso. Isso talvez aconteça porque abraçar a existência de outro tipo de prática religiosa fere os princípios de nossas próprias crenças monoteístas. Ao que parece, o nosso Deus é um tanto quanto ciumento... A espiritualidade deveria existir para, em primeira instância, fazer uma pessoa se sentir bem consigo mesma e, em seguida, ajudá-la a se relacionar melhor com o mundo ao seu redor, inclusive com as outras pessoas. Amor, compaixão e respeito ao próximo são preceitos básicos que fazem parte de todas as religiões. E se os objetivos e preceitos são os mesmos, que diferença faz o nome ou as cerimônias que cada um escolhe como as mais adequadas para si? Por acaso Deus não aceitaria Gandhi no paraíso? E Alá não reconheceria o valor da Madre Teresa? Se são monstruosas as grandes atrocidades cometidas mundo afora em nome da religião (como uma guerra, só para citar o exemplo mais óbvio), as pequenas atrocidades cometidas no dia-a-dia (como um simples olhar de recriminação, desdém ou mesmo pena que dirigimos a alguém que tem um credo diferente do nosso) são, no mínimo, revoltantes.
E mais revoltante ainda é esse nosso pensamento ocidental maniqueísta. Existe uma canção que ironiza com perfeição: "Lembre-se sempre que Deus está do lado de quem vai vencer". Amém.

* * *

O ano é 4005. A Terra foi devastada por guerras, catástrofes naturais e pelo derretimento das calotas polares, causado pelo aquecimento climático global. A superfície habitável do planeta foi reduzida a níveis mínimos e os poucos sobreviventes conseguiram, a muito custo, reconstruir a civilização. A sociedade hoje é primitiva e rudimentar. Ela sobrevive da produção agrícola e da criação de animais, tudo em pequena escala. Todas as relações comerciais são feitas à base de troca. Aliás, o próprio conceito de "comercial" foi extinto, juntamente com toda e qualquer noção de dinheiro. Não existem fronteiras, todos falam o mesmo idioma. Não existem governos. E existe apenas uma religião. A maior parte dos sobreviventes pratica o anakinismo. Mas é claro que sempre existem os pagãos...
Quatro homens estão reunidos à sombra duma árvore, se preparando para o almoço. Três deles são anakinistas fervorosos. Eles fazem suas preces e agradecem pelo alimento que estão prestes a ingerir, mas percebem que o quarto homem está de braços cruzados. O mais novo deles pergunta:
— Ei, você não vai agradecer?
— Não.
— Como assim? Por que não?
— Não acredito nessa bobagem.
Os três anakinistas se entreolham, intrigados. O mais novo insiste:
— Não acredita em que? Em agradecimento?
— Não acredito no anakinismo.
Os três homens se afastam, horrorizados. O mais novo deixa escapar uma exclamação. O mais velho abaixa a cabeça, balançando-a negativamente. O outro pergunta, de maneira um pouco agressiva:
— O que você quer dizer? Que você não acredita em Anakin Skywalker, o Escolhido, que foi concebido pelos Midichlorians e nasceu da Virgem Shmi para trazer equilíbrio à Força? Não acredita nas Escrituras Sagradas?
— Não. Acho isso uma grande bobagem.
O homem fica incorformado:
— Como alguém pode não acreditar nas Escrituras Sagradas? Basta... vê-las! Elas estão ali para nos contar a história exatamente do jeito que aconteceu!
— Vocês nunca pararam para pensar que essa história talvez nunca tenha acontecido de fato?
— Não diga besteira! O grande Apóstolo Lucas testemunhou a história e registrou-a para que nós, as gerações futuras, pudéssemos conhecê-la!
— E se esse Apóstolo Lucas simplesmente inventou a história?
Os três novamente se afastam, com ainda mais horror. O mais velho, que até então estava calado, diz:
— E disse o grande Anakin, sob a forma de Darth Vader: "Sua falta de fé me perturba". Episódio IV, cena 215.
Os outros dois fazem uma reverência respeitosa ao mais velho, que claramente possui um grande conhecimento sobre as Escrituras Sagradas. O pagão levanta-se e diz, com desprezo:
— Vocês são todos um bando de idiotas! Perdem seu tempo acreditando numa história registrada há dois mil anos atrás! Não existe nenhuma prova de que essa lenga-lenga tenha acontecido de verdade. E provavelmente tudo não passa de uma farsa, fruto da imaginação de um imbecil qualquer!
E sai, indignado. O mais novo faz menção de ir atrás dele, mas o mais velho o detém:
— Deixe-o ir, filho. Ele é um caso perdido.
— Mas é nosso dever tentar convertê-lo...
— Não! E disse o grande Mestre Yoda: "Faça ou não faça. Não existe tentar". Episódio V, cena 438.
Os dois novamente fazem uma reverência respeitosa ao mais velho. Realmente, não existe ninguém que conheça melhor as Escrituras Sagradas do que ele.

texto

 Escrito por John às 14h06 []



.:: Frutas-do-Conde, Lagartixas e Beijos Roubados - PARTE 3 ::.

Jorge cochilava na rede. Eram só sete horas da noite e ele já tinha bebido demais. Acordou com o sobrinho lhe atirando sementes de fruta-do-conde. Com voz de travesseiro, resmungou:
— Fala, guri.
Gabriel atirou a última semente, mas Jorge conseguiu apanhá-la no ar, antes de ser atingido, para deleite do menino. Ele gritou, correu e se atirou na rede, o que irritou um pouco o tio.
— Tio, você ama alguém?
— Não. Nem a mim mesmo.
— Mas você não tem namorada?
Prevendo que o sobrinho não ia desistir assim tão facilmente, Jorge suspirou, resignado, e sentou-se na rede. Respondeu, ainda meio mau-humorado:
— Um relacionamento a longo prazo é um luxo que eu não posso me permitir.
Gabriel percebeu que o tio estava apenas enrolando e dediciu ir direto ao assunto:
— A Karina é uma menina que mora aqui perto. Ela vive perturbando os meninos, ela é meio chata, ninguém gosta muito dela. Outro dia, os meninos pegaram a boneca da Karina e arrancaram a cabeça dela!
Jorge brincou:
— Arrancaram a cabeça da Karina?
— Não, tio! Da boneca!
— Ah, bom.
— A Karina... Ela disse que eu sou o namorado dela e perguntou se eu amo ela...
— Como assim? Do nada? Por que ela ia dizer uma coisa dessas assim, sem mais nem menos?
Gabriel parecia meio encabulado. Disse baixinho:
— Ela me beijou...
— Ela te beijou ou você que beijou ela, seu sem-vergonha?
— Foi ela, foi ela que me beijou! E eu nem queria... Muito... Eu acho...
O tio suspirou:
— Não esquenta não, guri, no começo é assim mesmo...
Olhou para o horizonte e continuou falando, meio que para si mesmo, quase se esquecendo que o sobrinho estava ali:
— Nosso instinto reprodutivo nos diz pra ir em frente, mas nosso instinto de preservação no avisa pra ter cuidado: "Olha, você já se deu mal antes, pode ser que aconteça de novo, vai com calma"... O problema é que, na maioria das vezes, por algum motivo, a gente acaba não dando ouvidos pra esse instinto de preservação. E as mulheres sempre nos dão um empurrãozinho no sentido de ignorar todos os avisos. Começam assim, como quem não quer nada. Primeiro, elas te roubam um beijo. Depois, te roubam o sono. E se você não tomar cuidado, elas roubam todo o resto: sua vida, seus sonhos, sua felicidade... Sua alma! Até que chega um belo dia e você finalmente se dá conta disso, mas aí já é tarde demais: ela já te trocou por outro e ainda por cima conseguiu te convencer de que a culpa é toda sua, que você é que foi incompetente demais e não conseguiu segurá-la perto de você... E você daria tudo pra voltar no tempo e...
De repente, Jorge se deu conta de que estava falando demais. Olhou para o sobrinho, que o encarava fixamente. Sorriu, sem graça, e disse:
— Mas tudo bem. Você ainda é muito criança pra se preocupar com isso. Mesmo se alguém porventura quebrar o seu coraçãozinho, você ainda tem muito chão pela frente. Seu coração é novinho em folha. Eu é que tô velho demais. Meu coração não dá mais conta do recado, não agüenta mais tanto sobressalto, tanta desilusão, tanta tristeza... Velho demais...
E calou-se, contendo a repentina e inexplicável vontade de chorar. Gabriel pensou um pouco, depois disse:
— Tio, seu coração... As células do seu coração são especializadas, como as do Pepe, né?
Jorge refletiu durante alguns instantes. Depois sorriu e abraçou o sobrinho. E ficou pensando que Gabriel tinha razão: alguém devia mesmo inventar a injeção de lagartixa.

FIM.

texto

 Escrito por John às 10h13 []



.:: Frutas-do-Conde, Lagartixas e Beijos Roubados - PARTE 2 ::.

Gabriel estava sentando no chão. Vendo o menino ali, brincando sozinho, Jorge enxergou a si próprio. Tinha tido uma infância solitária, não por falta de companhia, mas por escolha própria. Desde cedo, já parecia um desajustado, já parecia sentir que era diferente das outras pessoas e que não se encaixava no padrão. Aquele sentimento só fez aumentar com o passar dos anos. E agora, vislumbrava o mesmo futuro para o sobrinho. Aproximou-se dele, que, naquele instante, estava agachado, observavando alguma coisa na parede. Era uma lagartixa. Jorge agachou-se ao lado dele e ficaram lá os dois, olhando para o bichinho, que caminhava pela parede. Foi o menino quem falou:
— Eu gosto de lagartixas. Gosto de pensar que elas são uns dinossauros em miniatura.
O tio assentiu com a cabeça. Ficou pensando em algo interessante para dizer, até que soltou:
— Sabia que o rabo da lagartixa se regenera?
Gabriel virou-se e ficou olhando para ele, como que esperando a continuação da história. Jorge prosseguiu:
— É verdade. Se alguém cortar o rabo da lagartixa, com o tempo, ele cresce de novo.
— E do rabo cortado, nasce uma outra lagartixa?
— Não, aí também não. O rabo cortado, ele... Ele apodrece.
O menino voltou a observar a lagartixa, em silêncio. Era quase possível enxergar sua imaginação de criança, as engrenagens dentro de sua cabecinha se movendo a todo vapor. Até que ele finalmente disse:
— O Pepe, cachorro da dona Ilma, minha vizinha, foi atropelado. O corpo dele ficou dividido no meio, parecia que o carro tinha passado em cima e partido ele em dois!
O tio fez uma expressão piedosa. Gabriel perguntou:
— Por que o Pepe também não se "renegerou"?
— É "regenerou" que se fala. O Pepe não se regenerou porque as coisas não são assim tão fáceis...
O garoto continuou olhando para o tio, visivelmente insatisfeito com aquela resposta. Jorge suspirou. Não tinha sido um aluno lá muito aplicado nas aulas de Ciências na escola, mas ante o olhar insistente do sobrinho, tentou explicar, a seu modo:
— É mais ou menos assim: todos os seres vivos são formados por células, que são umas partículas muito, muito pequenas. As células do rabo da lagartixa são bem simples, pelo menos quando comparadas às células de... de um cachorro, como o Pepe, por exemplo. Assim, quando a lagartixa perde o rabo, por se tratar de uma coisa simples, ela consegue regenerar aquela parte. Já com o Pepe, a coisa muda de figura. As células dele não são nada simples...
— O Pepe é um bicho mais complicado, né?
— É. A gente costuma dizer que as células dele são... São especializadas. Por isso, o Pepe não consegue regenerar nenhuma parte do seu corpo.
— Entendi... E por que alguém não inventa uma injeção de lagartixa? Aí a gente podia dar essa injeção pro Pepe e as células dele iam conseguir regenerar o corpo...
— Bom, se isso fosse possível, as lagartixas iam valer uma fortuna.
— Tio Jorge, a gente pode cortar o rabo da lagartixa pra ver quanto tempo ela leva pra regenerar?
— Não, a gente não pode. Só porque ela consegue se regenerar não quer dizer que a gente possa fazer a bichinha sofrer. Isso é maldade.
— Hum, tá bom.
— Mas olha ali, um tatu-bola!
— Onde, onde?!

(CONTINUA...)

texto

 Escrito por John às 09h50 []



.:: Frutas-do-Conde, Lagartixas e Beijos Roubados - PARTE 1 ::.

— Fala, guri.
Ele estava ali, parado na porta, com o ombro apoiado no batente. Com uma das mãos, segurava uma xícara de alumínio fumegante, que provavelmente devia estar cheia de café. Tinha a cara toda amassada, de quem havia acabado de acordar. Gabriel, que estava sentado no segundo degrau da escadinha da varanda, virou-se para trás e respondeu:
— Oi, tio Jorge.
Tio Jorge era o irmão mais velho de sua mãe. Tinha chegado na madrugada anterior. Bêbado. Logo pela manhã, Gabriel tinha escutado os pais comentando o assunto, em voz baixa. O tio era escritor ("frustrado", gostava de salientar o pai) e, vez ou outra, aparecia lá no sítio para fazer um "retiro", como ele mesmo definia, para se dedicar ao "próximo livro". Mas Gabriel nunca via o tio escrever sequer uma linha. Ficava apenas zanzando dum lado para o outro. E bebendo. Quando não era uísque, era café. Como agora.
O tio caminhou pela varanda e foi se sentar na escadinha, junto com o menino. Quem visse os dois ali, lado a lado, não poderia negar que eram parentes. Eram muito parecidos, ambos haviam puxado o avô de Gabriel. E, apesar dos quase vinte anos que os separavam em idade, eles eram parecidos também no jeito de ser. Tinham ambos aquele ar meio triste e perdido dos sonhadores. Gabriel, que havia acabado de abrir uma fruta-do-conde, ofereceu ao tio:
— Quer?
Jorge olhou para a fruta por alguns instantes e depois fez uma careta:
— Não. Meus avós chamavam isso aí de pinha.
— É. Minha mãe sempre diz a mesma coisa.
Ficaram em silêncio por alguns instantes. Foi o tio quem tratou de quebrá-lo:
— Mas que diabo de nome é esse, fruta-do-conde?
— Meu pai disse que, há muito tempo atrás, tinha um conde que era muito rico. Ele era dono de uma porção de terras, todas com um monte de plantações. Ele vivia num castelo e era servido por um bando de criados. Os criados tinham que fazer tudo pro conde: dar banho nele, vestí-lo, dar comida pra ele... O conde era muito preguiçoso. Aí, um dia, logo depois do jantar, o conde tava comendo uma fruta. A fruta tava descascada, os criados tinham que descascar e cortar tudo pro conde, porque nem isso ele fazia. E aí o conde mordeu uma semente dentro da fruta e ficou uma fera! Cuspiu a fruta e a semente, disse que os criados eram uns incompetentes e vagabundos e mandou todos eles embora. E ainda expulsou os coitados das suas terras. Só que os criados eram protegidos por uma fada, que viu a cena toda e quis castigar o conde. Sabe o que a fada fez? Transformou todas as plantações do conde em fruta-do-conde, que é quase que só semente. E esse foi o castigo do conde: ele reclamou de uma semente e teve que passar o resto da vida chupando as sementes das frutas-do-conde.
— Hum, que bobagem! Aposto que seu pai inventou essa história só pra você não perguntar mais por que a fruta-do-conde se chama fruta-do-conde...
— É, eu sei disso. A história é toda cheia de furos. Por exemplo, por que o conde, que era tão preguiçoso, ia mandar todos os criados embora sem contratar outros no lugar?
— É mesmo.
— Mas tudo bem. Meu pai deve ter tido um trabalhão pra inventar essa história, o que vale é a intenção.
Jorge sorriu discretamente. Aos dez anos de idade, Gabriel era bem mais esperto que a maioria dos adultos que ele conhecia. Mas preferia não dizer isso em voz alta. Afinal, o garoto podia acabar ficando convencido demais.

(CONTINUA...)

texto

 Escrito por John às 10h46 []



A Grande Crise do Brócolis

Era um dia típico de semana, tão típico que nem é preciso dizer que dia era. No restaurante, os mesmos personagens de sempre: tinha a velha dona, que ficava no caixa e que, além de acertar as contas com os fregueses, recomendava este ou aquele prato ("o risoto de palmito está uma delícia!"). Tinha o filho da dona, que trabalhava como maître do restaurante e era casado com uma corretora de imóveis metida a dondoca, que dificilmente aparecia por lá. Em sua função de maître, era ele quem recepcionava o pessoal, indicava as mesas e, quando o serviço apertava, acabava dando uma mão para o garçom. Tinha o garçom, que nas horas vagas trabalhava também numa equipe de som que promovia bailes black na periferia. Tinha a chefe da cozinha, que recebia os pedidos e chefiava os cozinheiros. E tinha os cozinheiros, que não eram irmãos siameses. Eram um homem e uma mulher, mas não eram casados. Eram, na realidade, donos de personalidades distintas e histórias de vida bem diferentes, mas por não terem grande relevância nesta trama, serão sempre identificados assim, no plural: "os cozinheiros".
Ou seja, os personagens eram todos tão ordinários que nem é preciso batizá-los. Desta forma, aquele cliente gordo, que almoçava todos os dias no restaurante, será, daqui para frente, chamado apenas de "o maestro", pois alguém, em algum lugar, ouviu dizer que ele trabalhava "com a orquestra".
Pois bem, o maestro sentou-se na mesa de sempre (e, neste ponto, é importante dizer que ele sempre se sentava na mesa dezesseis). O maître se aproximou, deu um tapinha camarada em suas costas e disse:
— Tudo bem com o senhor? Quer que eu peça uma salada e aquele suquinho, enquanto o senhor olha o cardápio?
— Pode ser, respondeu o maestro, seco como de costume.
— Deixa comigo!
O maître deu outro tapinha, desta vez um pouco mais forte. Olhou para a chefe de cozinha, fingiu um ar circunspecto e fez um gesto com as mãos no ar, como se estivesse segurando uma batuta e regendo uma orquestra invisível. A chefe de cozinha riu baixinho e piscou, mostrando que tinha entendido o recado. Gritou para os cozinheiros:
— Abacaxi com hortelã na dezesseis!
De lá de dentro, começou-se a ouvir o barulho do liquidificador, enquanto a própria chefe se encarregava de montar uma salada com rúcula, alface, tomate e cenoura ralada, sem cebola. Nesse meio tempo, o restaurante começou a encher (era hora do almoço) e o maître e o garçom passaram a correr dum lado para o outro, feito baratas tontas, enquanto disparavam inúmeros pedidos. O suco e a salada do maestro ficaram prontos e a chefe tocou a campainha e gritou:
— Dezesseis!
A pedido do maître, o garçom correu até o balcão, pegou a bandeja, serviu o maestro e tirou do bolso o bloco de notas. Perguntou:
— O senhor já escolheu?
Sem nem olhar para o garçom (como de costume), o maestro respondeu:
— Filé de pescada à milanesa, brócolis e purê de mandioquinha. Dispenso o arroz e o feijão.
— É pra já!
Foi até o balcão, entregou o pedido para a chefe e repetiu em voz alta, como que para confirmar:
— Filé de pescada à milanesa, brócolis e purê de mandioquinha, sem arroz nem feijão, na dezesseis!
E correu de volta para atender as outras mesas, enquanto o maître flertava com uma senhora desquitada, mas ainda inteirona, que estava sentada na vinte e dois. Aqui, temos que avançar cerca de quarenta minutos no tempo, durante os quais a correria no restaurante aumentou ainda mais, bem como a gritaria no circuito mesa-balcão-cozinha. Sentindo a demora, o maestro cobrou seu prato umas três ou quatro vezes, de maneira cada vez mais ríspida, e já ameaçava se levantar e ir embora, quando a campainha finalmente tocou e a chefe gritou:
— Dezesseis!
Aliviado, o garçom correu até o balcão (o maître agora flertava com duas moças novinhas, sentadas na cinco) e pegou a bandeja. Foi quando se deu conta:
— Peraí... Cadê o brócolis?
A chefe franziu a testa:
— Que brócolis?
— O que eu pedi... O que acompanha a pescada e o purê de mandioquinha da dezesseis...
— Não tem brócolis.
— Mas é claro que tem, pode olhar aí na comanda...
— Não, eu quis dizer que não tem mais brócolis, acabou o brócolis!
— Como assim, acabou o brócolis?
— Acabou e eu te avisei.
— Avisou coisa nenhuma!
— Avisei sim! Assim que você me entregou a comanda, eu disse: "Acabou o brócolis, só temos couve refogada..."
— Mentira, eu não ouvi nada disso! E agora, o que eu vou dizer pro maestro?
— Tá me chamando de mentirosa?
A discussão começou a atingir um tom preocupante. O garçom e a chefe estavam praticamente aos berros e os fregueses já começavam a olhar, quando o maître decidiu intervir. Mas nem teve tempo de chegar ao balcão. A briga foi interrompida quando o garçom, visivelmente exaltado, gritou:
— Só porque você dorme com o filho da dona não quer dizer que você manda por aqui!
O maître parou onde estava, todos se calaram, mesmo o burburinho que vinha da rua pareceu se interromper por alguns segundos. A primeira a quebrar o silêncio foi a chefe, que, inesperadamente, começou a chorar. Soluçava feito uma criancinha. Os cozinheiros vieram de lá de dentro e tentaram consolá-la. O maître permanecia parado onde estava, como que congelado, mudo. O garçom, sem jeito e já arrependido da delação feita no calor da discussão, queria falar alguma coisa, mas não sabia bem o quê. No caixa, a dona começou a passar mal:
— Meu Deus, gente, que vergonha! Quanta humilhação! Na frente dos clientes!
E se abanava, com falta de ar. O garçom correu em seu socorro, com um copo d'água. No fundo, ele agora temia por seu emprego. Foi então que o maestro se levantou e, constrangido, dirigiu-se à saída. O garçom perguntou:
— Mas peraí, onde o senhor vai?
— Embora. Perdi o apetite.
E saiu, apressado. O maître finalmente conseguiu articular uma frase. Disse:
— Cancela a dezesseis.

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 Escrito por John às 16h10 []



Efeito Colateral Pra Gente Normal

Olhou-se no espelho pela décima vez. Pôs as mãos na cintura, empertigou-se e ensaiou uma pose de modelo fotográfica durante alguns segundos, para em seguida largar o corpo, desanimada. Despiu a blusa e atirou-a num canto qualquer, como se dispensasse a carta errada num jogo de baralho. Virou-se de lado e analisou mais uma vez sua imagem ali refletida: sentiu-se branca e corcunda demais, o que evidenciava a barriguinha que ela começava a enxergar. Suspirou, desconsolada. Nisso, o telefone tocou. Berrou para a mãe, que estava lá embaixo, na cozinha:
— Deixa que eu atendo!
Pegou o aparelho sem fio que estava em cima da cama. A voz do outro lado da linha disse:
— Sua vaca!
Somente sua amiga Ana Cláudia conseguia ser assim tão fina ao telefone...
— Oi, Ana, também senti sua falta hoje...
— Poxa, Camila, sua tratante! Você vai se encontrar com o Zé Henrique hoje e nem ia me contar?!
— Mas você nem foi na escola hoje, sua doida!
— Só fiquei gripada, não surda. Ainda existe telefone, ingrata!
— Hum... Aposto que foi a boca-aberta da Elaine que te contou.
— Hahaha, é óbvio que foi ela! Como diz minha mãe, aquela ali não segura nem senha de banco... Mas me conta, quero saber detalhes!
— Vou encontrar com ele agora à tarde, na porta do clube, depois que ele sair do treino.
— Ai, e ele vai vir todo suado, que delícia...
— Cala a boca, sua irritante!
— Vai, conta mais!
— Nada mais.
— Como assim, nada?! Me diz, como você tá se sentindo? Tá nervosa? Afinal, é a primeira vez que vocês vão se encontrar depois da festa...
— É... Não sei. Tô um pouco ansiosa sim. Mas sei lá...
— "Sei lá"? Que história é essa? Você vai sair com um tudo-de-bom daqueles e me diz que "sei lá"?
— É. Acho que eu sou meio estranha mesmo.
— Pode ter certeza, queridinha.
Aproveitou a pausa na conversa para experimentar outra blusa. Mas Ana Cláudia logo emendou outro assunto, do jeito histérico que lhe era peculiar:
— Ah, sabe quem eu vi na rua hoje, na hora em que tava voltando do médico?
— Quem?
— Seu namoradinho Bruno. Tava andando junto com outros nerds e...
— Ana, já te disse mil vezes! Ele não é meu namoradinho e nem nunca foi!
— É, você já disse isso. Mas acho essa história meio esquisita. Vocês viviam grudados e, de repente, do nada, simplesmente pararam de se falar. Por acaso rolou alguma briga? Ele tentou se aproveitar de você? Ele tentou...
— Ai, cala a boca!
— Hahahaha, tá vendo? Você sempre sai do sério quando alguém toca nesse assunto. E não deve ser à toa. Aposto que, por trás de toda aquela amizade, tinha segundas intenções. Aposto que esse Bruno tinha uma tara secreta por você e pela...
Ana Cláudia interrompeu a frase repentinamente ao perceber que estava prestes a dizer uma bobagem sem tamanho. Era possível notar o quão constrangida ela tinha ficado pelo tom de sua voz, quando começou a gaguejar e a se desculpar:
— Ai, Cá, pelo amor de Deus, desculpa, eu não quis...
Desta vez, foi Camila quem tratou de interrompê-la:
— Tudo bem, Ana. Não tem problema.
— Não, é sério, eu não quis...
— Já falei. Desencana.
Camila estava olhando para o espaço vazio em sua prateleira, onde antes havia um porta-retrato com uma fotografia sua ao lado de Bruno e de Ângela. Lembrava-se bem do momento em que havia decidido se desfazer daquele porta-retrato. Atirou-o com toda força em direção a um monte de lixo, num terreno baldio bem longe de sua casa. Saiu caminhando sem nem olhar para trás. Tinha catorze anos e isso foi logo depois que ela havia voltado do velório de Ângela...
Quando soube que sua melhor amiga havia morrido, quase teve um treco. Chegou a desmaiar. Mas, curiosamente, durante todo o velório e o enterro, simplesmente não conseguiu chorar. Não derrubou uma única lágrima. Martirizou-se por isso. Seus pais tentaram tranquilizá-la, dizendo que era algo natural e que, devido ao choque, ela tinha ficado num estado meio catatônico. Disseram ainda que, com o tempo, a "ficha" ia "cair". Mas dois anos haviam se passado desde então e aquilo tudo parecia apenas parte de um passado longínquo. Como se tivesse acontecido numa outra encarnação.
Camila sentiu-se incomodada com o silêncio repentino:
— Fala, Ana.
— O que?
— Sei lá. Qualquer coisa. Me conta alguma coisa.
Ana Cláudia começou a tagarelar a respeito do namorado de sua prima ou algo do gênero, mas Camila nem estava prestando atenção. Caminhou em direção ao armário e abriu-o. Apoiou o telefone sem fio no ombro e inclinou a cabeça para o lado, para segurá-lo. Enquanto isso, com as duas mãos livres, começou a vasculhar os cabides. Já não estava mais procurando um traje adequado para o encontro de mais tarde. Estava em busca da única peça de roupa velha que ainda guardava. Encontrou-a escondida debaixo dum pesado casaco de inverno.
Tirou e abriu. Era um vestido do tipo indiano, daqueles compridos e folgados. Uma lembrança dos tempos em que ela teimava em esconder sua silhueta, sempre sob os protestos de Ângela. "Você é linda, fica se escondendo debaixo dessas roupas de freira!", dizia a amiga, que sempre forçava Bruno a se manifestar também, para ratificar sua opinião: "Não é, Bruno?". "É sim, Gê", ele respondia, sorrindo para Camila. Ela ficava sem graça, mas sentia uma estranha ponta de satisfação naquilo.
A voz cortante de Ana Cláudia, ao telefone, de repente se fez ouvir:
— Ah, não te contei! O Jorge disse que consegue o remédio pra semana que vem.
— Ai, Ana, ele tinha dito a mesma coisa na semana passada...
— Eu sei, mas é que é difícil conseguir essas coisas. A venda é controlada, tem que ter receita e tal...
— Sei. Mas, escuta, não tem mesmo nenhum efeito colateral? Digo, pra pessoas... normais?
— Você não precisa se preocupar com isso. No seu caso, vai ser até bom. Quem sabe o remédio não conserta essa sua cabecinha oca?
— Engraçadinha...
— Falando sério, pode ficar tranquila. Pra você ter idéia, soube por fonte segura que a Rebeca toma... Mas isso é em off, ok?
— Rá! Sabia que aquele corpinho não era fruto só de academia.
— Bom, semana que vem então. Já separa a grana. E, ó: quero saber tudinho do seu encontro com o tudão, hein?
— Pode deixar. Beijo.
— Beijo, amiga.
Desligou o telefone e olhou mais uma vez para o vestido. Jogou-o de volta para dentro do armário. Escolheu uma blusinha decotada que deixava sua barriga à mostra. Olhou-se no espelho, deu uma volta e sentiu-se quase satisfeita. Encarou seu próprio rosto por alguns segundos. Fechou os olhos, suspirou e correu até o banheiro. Ajoelhou-se em frente ao vaso sanitário e enfiou o dedo na garganta. Como sempre, prometeu que era a última vez que faria aquilo.
E ficou imaginando o que Ângela e Bruno diriam se a vissem assim.

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 Escrito por John às 18h44 []



O casal, de mãos dadas, caminhava lentamente para fora do facho de luz que o holofote projetava. Os dois simbolicamente adentravam a escuridão, como se tivessem sido expulsos do paraíso. Era assim que terminava aquela peça de teatro.
Na coxia, o dramaturgo aguardava, ansioso. Pareceram-lhe longos e intermináveis segundos de espera silenciosa, até que a platéia finalmente explodiu em aplausos. Sua primeira reação foi respirar aliviado. A ovação continuava e ele agora se sentia realizado, feliz com a aprovação do público. A cada grito, a cada assovio, seu peito se estufava e se enchia de mais orgulho. Envaidecido, sentiu-se todo-poderoso, como Deus: de umas míseras folhas de papel em branco, ele havia criado a vida!
Todo o elenco da peça saiu então de trás das cortinas para saudar a platéia. Os espectadores se levantaram e começaram a aplaudir com ainda mais entusiasmo. Por algum motivo, o dramaturgo sentiu-se incomodado com aquela manifestação excessiva. Contrariado, tentou se convencer de que o público, em geral, é apenas uma massa de pobres ignorantes. Eles não compreendem que os atores nada mais são que meros instrumentos e que a grande, verdadeira e única arte é obra do autor.
O casal de protagonistas correu até a lateral do palco e fez subir o diretor da peça. Uma das coadjuvantes entregou-lhe um buquê de flores. A platéia gritava e assoviava mais do que nunca. O diretor parecia encabulado, sorria sem-graça, segurava o buquê com uma das mãos e não sabia o que fazer com a outra. Da coxia, o dramaturgo segurava-se para não pular no pescoço daquele miserável que estava roubando seu momento de glória. Se pudesse, enviaria uma nuvem de gafanhotos e rios de sangue, mataria o primogênito daquele charlatão que queria tomar o seu lugar.
Para o dramaturgo, não bastava ter criado aquilo tudo. Não era suficiente ver o sucesso de sua obra. Era preciso ter o crédito, reconhecimento. Era preciso que todos o admirassem, louvassem e repetissem seu nome. Não, não era por vaidade. Era apenas questão de... justiça, sim, justiça!
E Deus criou o homem à sua imagem e semelhança.

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 Escrito por John às 09h45 []



FALTA POUCO AGORA...

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 Escrito por John às 15h17 []



Minha avó era cega.
Mesmo assim, ela costurava.
Manuseava com destreza a tesoura e a máquina de costura.
Cortava uma porção de retalhos triangulares de diferentes tecidos e estampas.
Com eles, fazia para cada neto um "futon", que é uma espécie de edredon japonês.
Apesar de ser cega e de usar sempre os mais diversos retalhos, os "futons" da minha avó nunca resultavam num caos de estampas.
Havia sempre uma inexplicável harmonia naquela variedade de desenhos, como se a disposição dos retalhos tivesse sido planejada, e não aleatória.
Aquilo me intrigava muito e por isso eu ficava sempre sentado, observando-a costurar os "futons".
Pelo que pude perceber, tudo o que ela fazia era separar os retalhos em pequenos montinhos desordenados.
Talvez ela escolhesse quais usar pela textura do tecido ou algo semelhante.
Eu tinha sempre vontade de perguntar a ela, pedir que me explicasse como fazia.
Mas minha avó não falava português.
"Danico", que era como ela me chamava, era uma das poucas palavras que ela dizia e que eu conseguia entender.
Depois de um tempo, desisti de tentar saber como os "futons" eram feitos.
A conclusão a que cheguei é que a visão e a fala (e toda a racionalidade e lógica que trazem consigo) às vezes só atrapalham.
Deitado em silêncio, na escuridão do meu quarto, sentindo o calor e a maciez do meu "futon", eu pensava que tudo o que a gente precisa saber está na ponta dos dedos.

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 Escrito por John às 10h05 []



"Fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho..."
É a mesmíssima música, mas hoje cantarolo os versos num outro tom.
Sem aquele aperto no coração e sem nenhum toque de melancolia.
Penso nisso enquanto caminho pela avenida Paulista.
É o mesmo cenário, só que hoje não há frio e nem garoa.
Hoje vou te encontrar.
Você tem um jeito próprio de chegar.
Senta-se sem cerimônia ao meu lado enquanto leio um livro.
Ao invés do "oi", um beijo.
Caminhar de mãos dadas é um ato simples, porém reconfortante.
Eu não deixo você cair.
Você faz o mesmo por mim, mas muito além do sentido literal.
Chegamos no local e há fila na porta.
Eu nem me importo: te abraço e conto uma história.
Daquelas que te fazem rir.
Fico então me perguntando como é que uma única pessoa pode fazer tanta diferença na vida da gente.
E chego à conclusão de que a vida assim é que é completa.
A fila anda e o maitre interrompe meus devaneios com a pergunta:
— Mesa pra dois?
Respondo, sorrindo:
— Isso!

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 Escrito por John às 15h27 []



DO VERÃO À PRIMAVERA
Quatro haicais* para Sílvia

Suave brisa
sopra se penso em ti
e me abraça.

***

Folhas que caem,
outono na xícara.
Teu chá me cura.

***

Lábios se unem
numa noite invernal.
A neve se vai.

***

Doce sorriso
voa feito pássaro.
Me deixo levar.

***

(*) Numa explicação simplificada, haicais (ou haiku) são poemas japoneses que se caracterizam por uma estrutura fixa de três versos e 17 sílabas, divididas da seguinte maneira: 5 sílabas no primeiro verso, 7 no segundo e 5 no terceiro. Geralmente, são breves retratos de um momento ou relatos de alguma sensação.
Contam também com forte presença de elementos da natureza, especialmente das estações do ano. Esses elementos são colocados de maneira explícita ou simbolizados através de "kigos", que são palavras que funcionam como "chaves" da estação. Por exemplo, a brisa geralmente representa o verão, assim como os pássaros representam a primavera.
Cada um dos haicais acima se refere a uma estação. Os quatro juntos são uma homenagem a mais um ano de vida que a inspiradora destes versos completará no sábado, dia 30.

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 Escrito por John às 11h30 []



Rapidinhas na semana de fechamento...

- PARA OUVIR: Coralie Clément, com o disco "Bye Bye Beauté" (EMI Music). Pop francês, vocais sussurrados, melodias altamente assobiáveis e guitarras estilo britpop. Além de ser uma boa cantora, a moça também compõe em parceria com Daniel Lorca, do Nada Surf. "Indécise", "Gloria" e "Jeu du Foulard" são pérolas deliciosas.

- PARA LER: J. D. Salinger, com "Nove Estórias". Compilação de contos do mesmo autor de "O Apanhador no Campo de Centeio" (um dos meus livros de cabeceira). Personagens desajustados são os protagonistas de histórias envolvendo Segunda Guerra Mundial, adultério, peixes-banana e crianças, muitas crianças.

- PARA VER: Lúcia Murat, com "Quase Dois Irmãos". Todo mundo já deve ter ouvido pelo menos alguma coisa sobre esse filme que mostra o relacionamento entre um preso político e um criminoso "comum". Roteiro bem sacado, assinado pela própria Lúcia e por Paulo Lins ("Cidade de Deus"), e interpretações excelentes de Caco Ciocler e Flávio Bauraqui.

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 Escrito por John às 16h53 []



A MISSÃO - Parte 4

Mais tarde, fiquei sabendo que a bruxa segurou o Santista e telefonou para a mãe dele, mandando-a vir buscá-lo. Não satisfeita, a bruxa ainda passou o maior sermão nela. Disse para a mãe do Santista que o moleque havia invadido sua propriedade e que estava prestes a furtar seu olho de vidro. Apanhado de surpresa, ele derrubou o olho no chão, trincando-o. Nesse meio tempo, o pai do Santista chegou em casa, completamente bêbado, e, não encontrando a mulher e nem o filho, virou uma fera. Quando eles finalmente chegaram de volta da casa da bruxa, ele quis saber o que estava acontecendo. Diante das ameaças do marido embriagado e descontrolado, a mulher não teve outra alternativa a não ser relatar o episódio. O homem saiu de si e deu uma surra brutal no filho. Ouviu-se a gritaria na rua inteira. Os vizinhos, revoltados, chamaram a polícia. Chegando lá, prenderam o pai do Santista e levaram-no detido. Instruíram a mãe a dar queixa na delegacia, onde o Santista passou por um exame de corpo de delito e teve que prestar depoimento, acusando o próprio pai. Uma baixaria.
Somente uma semana depois disso é que o Santista voltou a freqüentar o grupo escolar. Ainda era possível ver os sinais da surra em seu corpo - arranhões, hematomas e, ainda pior, seu espírito totalmente quebrado. Ele havia mudado, parecia outra pessoa - tinha ficado ainda mais quieto, sério e retraído. Passou a se sentar numa cadeira bem afastada de nós e não queria mais saber de conversar e nem de brincar com ninguém. Entrava na sala mudo e saía calado, até que um dia simplesmente parou de freqüentar as aulas de vez. Disseram até que ele tinha voltado para Santos com a mãe. O Batra também acabou ficando todo esquisito depois que soube que o Santista tinha apanhado feio do pai por causa da aventura na casa da bruxa. Talvez ele se sentisse, de alguma forma, culpado por tudo aquilo que tinha acontecido, sei lá. Afastou-se de mim completamente. E foi assim que nosso "clube" encerrou as atividades.
Numa tarde das mais quentes, porém, eu estava andando de bicicleta e, por algum motivo, decidi ir até o lago. Talvez quisesse matar as saudades. Chegando lá, encontrei o Batra sentado no chão, encolhido, com os braços segurando os joelhos e olhando para o horizonte. Desci da bicicleta e, sem dizer palavra, pus-me ao lado dele. Catei algumas pedrinhas no chão e comecei a atirá-las na água. Ficamos assim, em silêncio. Até que o Batra disse:
— Não é possível. Ele era valente. Topava todos os meus desafios. Sempre me vencia.
Não respondi nada. Reparei que uma lágrima escorria dos seus olhos. Ele disfarçou, eu fingi que não tinha visto e atirei outra pedra na água. Ele repetiu:
— Não é possível.
Eu não respondi nada. Ele acrescentou:
— Tão valente... Por que ele se acovardou? Por que não enfrentou?
Eu não entendi muito bem. Quem será que o Batra queria que o Santista tivesse enfrentado? A bruxa ou o pai? Sem saber exatamente por que motivo, respondi:
— A culpa é da bruxa...
Ficamos calados por mais alguns instantes. Até que o Batra levantou repentinamente:
— É isso mesmo!
Fiquei olhando para ele, sem entender. Ele se virou para mim:
— Você tá certo, Pulga! A culpa é da bruxa!
Franzi a testa.
— Você não percebe? Antes ele era valente e, de repente, virou um covarde!
Continuei olhando para ele.
— A bruxa jogou um feitiço nele! A bruxa fez com que ele ficasse quietinho, obediente... Que nem um cachorro!
Repeti as últimas palavras do Batra, como que tentando entender:
— Que nem um cachorro...
— É! Você não vê? Em vez de transformar ele num cachorro de verdade, a bruxa só jogou um feitiço, que fez ele ficar adestrado! Adestrado que nem um cachorro!
De repente, tudo fez sentido.
— É mesmo, Batra! Você tem razão! A gente tem que fazer alguma coisa!
— Eu te digo o que a gente vai fazer: a gente vai lá enfrentar essa bruxa. A gente vai obrigar ela a desfazer esse feitiço! E talvez isso até traga o Santista de volta...
— É... E quando a gente vai lá?
— Quando? Agora mesmo, pô!
— Então vamo!
E lá fomos, o Batra e eu, em direção à casa da bruxa. Rumo à missão mais importante do nosso "clube".

.: FIM :.

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 Escrito por John às 09h53 []




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